“Charlotte vs. outras Abordagens” por Sonya Shafer

Será que você está tentando decidir qual método ou currículo de homeschooling usar ou querendo apenas saber como praticar o homeschool?

Obviamente, nós gostamos do método de Charlotte Mason por aqui, mas como ele se compara aos outros? E qual é a diferença entre as muitas abordagens das quais você já ouviu falar?

Bem, este texto pretende ajudá-lo a resolver isso. Talvez você ouviu ou pensou em perguntas ou declarações como essas:

“Charlotte Mason não é bem semelhante à abordagem clássica?”

“Pensei que Charlotte Mason fosse estudo por unidade.”

“Então Charlotte Mason é realmente um tipo de unschooling (desescoloarização)?”

“Qual é a diferença entre Charlotte Mason e currículo tradicional?”

Vamos dar uma olhada em cinco das principais abordagens ao homeschooling e observar algumas semelhanças e diferenças. Em outras palavras, como a abordagem de Charlotte Mason é diferente das outras quatro: clássica, estudo por unidade, desescolarização e tradicional?

TRÊS PERGUNTAS-CHAVE

Para começar a entender as diferenças e semelhanças, precisamos fazer três perguntas-chave.

Como essa abordagem vê a criança?

Como essa abordagem define “educação”?

O que essa abordagem afirma ser o papel do professor?

AS RESPOSTAS DE CHARLOTTE MASON

Vejamos as respostas de Charlotte Mason para essas três perguntas.

Como Charlotte Mason vê a criança?

A criança é uma pessoa plena cuja educação deve cultivar pessoa integralmente. A personalidade de uma criança merece respeito e seu apetite natural pelo conhecimento deve ser nutrido.

Como Charlotte Mason define “educação”?

 A educação é uma atmosfera, uma disciplina, uma vida.

 “Com isso queremos dizer que os pais e os professores devem saber fazer um uso sensato das circunstâncias da criança (atmosfera), devem treiná-la em hábitos de boa vivência (disciplina) e devem nutrir sua mente com ideias, o alimento da vida intelectual” (Vol.3, pp. 216, 217).

A educação é a ciência das relações. – A criança deve formar relações pessoais com o conhecimento a partir de um banquete de grandes ideias, dadas através de um amplo currículo.

“Eles vêm ao mundo com muitas relações esperando por serem estabelecidas; relações com lugares distantes e próximos, com o vasto universo, com o passado da história, com a economia social do presente, com a terra em que vivem e toda sua deleitosa prole de feras e pássaros, plantas e árvores; com os doces seres humanos por meio de quem vieram ao mundo; com seu próprio país e com outros países; e, sobretudo, o mais sublime dos relacionamentos humanos – sua relação com Deus” (Vol. 6, pp. 72, 73).

O que Charlotte Mason afirma ser o papel do professor?

 O professor é um guia. Ele deve cuidadosamente preparar e dispor o banquete de ideias vivas, apresentando a criança às grandes pessoas do passado e do presente que refletiram sobre estas ideias, e então se afastar do caminho e deixar que a criança forme suas próprias relações.

“Dê às crianças uma ampla gama de assuntos, com o fim de estabelecer em cada caso uma ou mais das relações que indiquei. Deixe-os aprender com fontes de informação de primeira mão – livros realmente bons, os melhores sobre o assunto em que estão envolvidos. Deixe-os chegar aos livros por si mesmos, e não permita que sejam inundados com as opiniões de seu professor. O papel do professor é indicar, estimular, dirigir e restringir a aquisição do conhecimento, mas de modo algum ser ele mesmo a nascente e a fonte de todo o conhecimento” (Vol. 3, p.162).

Você vai descobrir que a maioria das diferenças entre as abordagens de homeschooling giram em torno dessas três perguntas-chave. E quando você entender como cada abordagem responde a essas perguntas, você ganhará uma maior confiança no ensino, bem como na seleção de recursos e no planejamento de seu ano de estudo.

1- Charlotte Mason x Currículo Tradicional 

Apenas para ter certeza de que estamos todos na mesma página, vamos definir o que queremos dizer por tradicional. Um currículo tradicional usa, em sua maior parte, livros didáticos e livros de exercícios para abordar os fatos. E, geralmente, usa perguntas diretas para avaliar a retenção desses fatos. As perguntas diretas são geralmente de preencher o espaço embranco, verdadeiro-ou-falso, múltipla escolha, ou resposta curta.

Se você quiser saber simplesmente como os métodos diferem entre si, o método de Charlotte Mason usa livros vivos em vez de livros didáticos e narração em vez de perguntas diretas.

Por que Charlotte Mason usava livros vivos e narração?

Vamos olhar um pouco mais profundamente. Quando começamos esta série, mencionamos três questões-chave que podem nos ajudar a determinar as diferenças entre as filosofias educacionais. Então vamos dar um minuto para perguntar por que Charlotte Mason usava livros vivos e narração em vez de livros didáticos e perguntas diretas. A resposta está em como ela definia a educação.

  • Livros vivos em vez de livros didáticos

Charlotte acreditava que a educação é “uma vida” – que devemos nutrir a mente da criança com ideias, não apenas com fatos secos ou meras informações. Portanto, ela usava livros que tocavam a imaginação e as emoções, que tornavam o assunto vivo para o aluno.

“Eles vão se arrastar obedientemente sobre qualquer das centenas de volumes (secos como poeira) publicados sob o título de ‘Livros escolares’ ou de ‘Educação’, e vão guardar todos esses livros no pátio exterior, sem permitir que qualquer deles tenha acesso a suas mentes. Um livro pode ser longo ou curto, velho ou novo, fácil ou difícil, escrito por um grande homem ou um homem comum, e ainda ser um livro vivo que encontra caminho para a mente de um jovem leitor” (Vol. 3, p 228).

  • Narração em vez de perguntas diretas

Charlotte também definiu a educação como “a ciência das relações”. Ela queria que as crianças formassem relações com Deus, com a humanidade e com o universo ao seu redor. Ao pedir às crianças que recontassem em suas próprias palavras, e com suas próprias opiniões e personalidade envolvidas (narração), estava convidando-as a compartilhar as relações que haviam formado. E formar relações pessoais é um conceito completamente diferente de lembrar informações que alguém afirmou serem necessárias.

“Não se pode dizer o suficiente que informação não é educação. Você pode responder a uma pergunta de prova sobre a posição das Seychelles e das Ilhas Comores sem ter sido nem um pouco nutrido pelo fato desses grupos insulares existirem em tais e tais latitudes e longitudes; mas se você seguir Bullen em O Cruzeiro do Cachelot, os nomes animarão aquela pequena mente agitada, o que indicará a recepção de conhecimento real” (Vol. 3, p.169).

2- Charlotte x Estudo por Unidade

Quando comecei o homeschooling, há mais de treze anos, eu usava uma abordagem de estudo por unidade, porque pensava que era a minha única alternativa a um currículo tradicional. No final daquele ano, eu ouvi sobre Charlotte Mason e soube que o método dela era o que eu desejava seguir.

Durante os anos seguintes, eu ponderei sobre a diferença entre a abordagem de estudo por unidade e a abordagem de Charlotte Mason. Não consegui entender a distinção mais plenamente até que li algumas passagens entre os escritos de Charlotte.

Olhemos, então, para a forma como Charlotte explicava a diferença entre seu método e uma abordagem de estudo por unidade.

FORMANDO RELAÇÕES

Como mencionamos anteriormente, Charlotte acreditava que a verdadeira educação consiste em formar relações com Deus, com a humanidade e com o universo ao nosso redor. Ela era particularmente enfática em afirmar que a própria criança é quem deveria fazer o trabalho mental de formar essas relações.

Aqui reside a primeira diferença entre Charlotte Mason e o estudo por unidade. Em uma abordagem de estudo por unidade, é o professor que forma as relações e faz as conexões para a criança, apresentando, em seguida, suas descobertas.

“O professor fez isso; Ele selecionou as ideias, mostrou a correlação entre elas e o trabalho está encerrado” (Vol.6, p.114).

No Volume 6, Charlotte deu um exemplo de um estudo por unidade com Robinson Crusoe como o ponto focal (p.115). As atividades incluíam:

  • Lições objetivas sobre o mar, um navio de terras estrangeiras, um barco salva-vidas, molusco, uma caverna, etc.
  • Lições de desenho sobre um remo, uma âncora, um navio, um barco, etc
  • Construção de modelos de uma orla marítima, da ilha de Robinson, da casa e cerâmica de Robinson
  • Leitura de passagens de Robinson Crusoe para Crianças
  • Leitura de passagens de um leitor geral sobre os itens mencionados nas lições de objetivas
  • Elaboração de resumos em grupo e escrita dos resumos no quadro-negro
  • Aritmética relacionada a Robinson (sem exemplos)
  • Canto e Recitação, por exemplo, “Eu sou o monarca de tudo que vejo”, etc.

Em um típico estudo por unidade, o aluno depende do professor para lhe mostrar como as ideias estão conectadas e relacionadas entre si. Charlotte queria que o aluno formasse essas relações por si mesmo, o que ela acreditava ser a chave para que a criança se “apossasse” de uma ideia.

CONEXÕES NATURAIS

Mas o currículo de Charlotte não correlacionava certos assuntos? Sim, Charlotte frequentemente relacionava história, geografia e literatura para o mesmo período de tempo. Mas aqui está a segunda diferença: Charlotte fazia uma distinção entre o que considerava conexões naturais e conexões forçadas e arbitrárias.

Nas escolas de Charlotte “a coordenação dos estudos é cuidadosamente regulada sem qualquer referência ao choque de ideias nas fronteiras ou sua combinação em múltiplas apercepções; mas unicamente com referência à coordenação natural e inevitável de certos assuntos. Assim, em leituras sobre o período da Armada, não devemos empregar lições de aritmética contemporânea para cálculos quanto à quantidade de alimento necessário para sustentar a frota espanhola, porque esta é uma conexão arbitrária e não inerente; mas devemos ler tal história, viagens e literatura, de forma a tornar Armada Espanhola viva na mente” (Vol. 3, p.231).

Conforme descrito na seção Formando Relações acima, um típico estudo por unidade tenta correlacionar cada assunto escolar possível em torno do tema de estudo escolhido. A abordagem de Charlotte Mason limita-se apenas àquelas conexões naturais que são inevitáveis. Por exemplo, ao estudar uma pessoa ou um evento na história, segue-se naturalmente que a criança vai aprender sobre o lugar em que essa pessoa viveu ou em que o evento aconteceu (geografia). E se a criança está usando um bom livro vivo, ele será, provavelmente, exposto à literatura daquele período de tempo. Esses três assuntos escolares estão inerentemente combinados.

Agora você conhece as duas passagens, nos Volumes 3 e 6, que me ajudaram a descobrir a diferença entre o método de Charlotte Mason e a abordagem de estudo por unidade. Espero que elas também sejam úteis para você.

3- Charlotte Mason x Método Clássico

Até agora, examinamos as três perguntas-chave que nos ajudam a discernir as diferenças entre os métodos de homeschooling, e falamos sobre como o método de Charlotte Mason é diferente de um currículo tradicional e de estudos por unidade. Vamos olhar como Charlotte Mason difere da abordagem clássica.

QUE ABORDAGEM CLÁSSICA?

Em primeiro lugar, precisamos esclarecer o que queremos dizer com “abordagem clássica”. Uma educação baseada em livros clássicos de linguagem rica, que sustentam virtudes elevadas é, às vezes, chamada de abordagem clássica. Charlotte Mason endossaria esses elementos e usaria o mesmo tipo de livros.

A diferença está na abordagem clássica que é baseada no trivium (os três estágios dos alunos) e que enfatiza a memorização e delineamento de fatos. Então, neste post vamos nos concentrar nessa abordagem e como ela difere de Charlotte Mason.

ALIMENTANDO A MENTE

Provavelmente, a maior diferença entre esses dois métodos reside no tipo de “alimento” que abordagem dá à mente da criança. A abordagem clássica parece enfatizar fatos como alimento, com um padrão cuidadosamente organizado de quais ingredientes de informação devem alimentar a criança e quando. E, certos fatos são considerados cruciais para obter uma mente corretamente nutrida.

Com o método de Charlotte Mason, as idéias (e não os fatos) são o alimento para a mente. Em uma educação estilo Charlotte Mason, você dispõe um banquete de alimentos nutritivos e convidativos e deixa que a criança escolha com quais ideias ela formará uma relação — quais ideias farão conexões e fornecerão alimento à sua mente. Cada criança pode levar algo diferente do banquete, mas isso é bom, porque todas as comidas são saldáveis e saborosas.

Lembre-se do lema “A Educação é a Ciência das Relações”. Charlotte não estava tão preocupada com os fatos que uma criança conhecia quanto com as relações que tinha formado — com quais ideias ela se sentia familiar e se preocupava.

Nosso objetivo na Educação é oferecer uma vida plena. — Começamos a avistar o que queremos. As crianças nos fazem grandes exigências. Devemos isto a elas: iniciar um número imenso de interesses. ‘Tu puseste meus pés em um lugar espaçoso’, deveria ser o grito alegre de toda alma inteligente. A vida deveria ser totalmente vivida, e não meramente uma tediosa passagem de tempo; não totalmente realizada, ou totalmente sentida, ou totalmente pensada – a tensão seria muito grande –, mas, totalmente vivida; isso significa que deveríamos estar em contato com algum tipo de interesse vital onde quer que fossemos,  em quaisquer coisas que ouvíssemos ou víssemos. Não podemos dar às crianças esses interesses; preferimos que eles nunca dissessem que aprenderam botânica ou conquiliologia, geologia ou astronomia. A questão não é o quanto um jovem sabe ao término de sua educação – mas o quanto ele se importa, e sobre quantas ordens de coisas ele se importa. Na verdade, quão grande é o lugar onde seus pés estão postos? E, por conseguinte, quão completa é a vida que ele tem diante si? “(Vol. 3, pp. 170, 171).

Charlotte acreditava que apenas as ideias que haviam estabelecido residência nos profundos recessos da mente de uma criança influenciariam sua vida e, assim, verdadeiramente a educariam.

“Embora eles se arrastem obedientemente sobre qualquer uma das centenas de volumes secos-como-poeira publicados pelos editores sob o título de ‘Livros Escolares’, ou de ‘Livros de Educação’, eles mantêm todos esses livros no pátio exterior e não permitem que tenham acesso às suas mentes” (Vol. 3, p.222).

“No final, veremos que somente as ideias que alimentaram a vida da criança foram recebidas em seu ser” (Vol. 2, p.38).

4- Charlotte Mason x Unschooling

Quando falamos sobre unschooling, estamos nos referindo a uma abordagem espontânea que é principalmente dirigida pelas crianças. Normalmente não há um currículo definido. O pai e a criança estudam o que interessa à criança no momento. Eles tentam tirar proveito das oportunidades de aprendizagem à medida que surgem.

RESPEITANDO A CRIANÇA

Tanto o unschooling quanto Charlotte Mason procuram respeitar a criança como uma pessoa. O unschooling mostra este respeito dando preferência aos interesses da criança e incentivando a sua individualidade para direcionar seus estudos.

Charlotte Mason respeita a individualidade da criança também. De fato, um dos princípios fundamentais da abordagem de Charlotte Mason é que a criança é uma pessoa única e deve ser tratada como tal. Muitos dos métodos usados em uma educação estilo Charlotte Mason mostram respeito pelo indivíduo.

Por exemplo, o caderno da natureza é de posse exclusiva da criança; ela coloca nele tudo o que ela mesma observa. Narrações, também, respeitam a criança como uma pessoa. O pai ouve atentamente enquanto o estudante diz o que absorveu, misturado com sua própria opinião e qualquer relação que ele tenha formado com as ideias.

O método de Charlotte Mason dispõe um banquete de ideias diante da criança e a encoraja a formar suas próprias relações pessoais com as ideias.

QUEM ESCOLHE O MENU?

Se educar é dispor um banquete, como Charlotte descreveu, o unschooling permite que a criança defina o menu. Ela deve escolher quais alimentos serão preparados. E é aí que Charlotte Mason e o unschooling diferem.

Charlotte acreditava no planejamento do professor e na preparação do banquete. Ela explicou que os professores devem apresentar o banquete de ideias vivas em uma ordem cuidadosamente planejada. “A leitura deles deve ser cuidadosamente ordenada; em sua maior parte, na seqüência histórica” (Vol. 6, p.341).

Sim, as crianças são livres para tirar do banquete o que elas estão prontas para obter naquele momento. Elas são encorajadas a formar suas próprias relações pessoais com as ideias que são apresentadas, mas as ideias são apresentadas de forma bem-pensada, ordenada.

Os estudos não são aleatórios, dirigidos pelos interesses da criança. Na verdade, Charlotte especificou que em suas escolas “Não há seleção de estudos, ou de passagens ou de episódios, com base no interesse. O melhor livro disponível é escolhido e lido talvez ao longo de dois ou três anos” (Vol. 6, p.7). E, “Não são dadas lições dispersas sobre assuntos interessantes; o conhecimento que as crianças recebem é consecutivo” (Vol. 6, p.7).

INTERESSES INDIVIDUAIS

Será que Charlotte Mason não deixa espaço para a aprendizagem individual ou a busca de interesses? Não! Isso é o que as tardes livres preveem. No método de Charlotte Mason, as aulas são concluídas pela manhã, deixando as tardes livres para os alunos perseguirem interesses individuais.

Esperamos que este texto sobre como o método de Charlotte Mason difere de outras abordagens de homeschool tenha sido útil enquanto você pondera vários currículos, métodos e cronogramas. Obviamente, nós preferimos o método de Charlotte Mason, mas queremos encorajá-lo a usar o que se encaixa para sua família neste momento da vida. Pense por meio das três perguntas fundamentais, em seguida, prepare uma educação que irá funcionar melhor para você e seus filhos.

Retirado de Educação em Família

Reproduzido e traduzido com a permissão de Simply Charlotte Mason.

Traduzido por Arielle Pedrosa

 

Um comentário em ““Charlotte vs. outras Abordagens” por Sonya Shafer

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s