“Inatividade Controlada” por Sonya Shafer

Nós amamos nossos filhos. E temos grandes esperanças em relação a eles. Como Charlotte Mason tão acertadamente colocou: “As pessoas sentem que podem criar seus filhos para serem algo mais do que eles mesmos, que precisam e devem fazer isso.”

Esse é o motivo por que educamos em casa. Queremos dar algo mais aos nossos filhos.

Mas, por causa desse desejo, podemos facilmente cair em uma armadilha. “Devemos fazer tanto por nossos filhos, e somos capazes de fazer tanto por eles, que começamos a pensar que tudo repousa sobre nós e que não devemos interromper sequer por um momento a nossa ação consciente sobre as jovens mentes e corações ao nosso redor. Nossos esforços se tornam exigentes e insones. Ficamos demais com nossos filhos, ‘cedo e tarde’. Tentamos dominá-los demais, mesmo quando falhamos em governar, e somos incapazes de perceber que um afastamento sábio e proposital é a melhor parte da educação”.

“Espere um minuto, agora, Charlotte”, você diz: “‘Afastamento sábio e proposital’? Quer dizer que não devemos disciplinar nossos filhos? Basta deixá-los livres e esperar que eles se saiam bem?”

Isso não é o que Charlotte queria dizer. De fato, este conceito de Inatividade Controlada, como ela o chamou, é baseado em um forte fundamento de autoridade. Você, como pai ou mãe, tem a autoridade. E as crianças devem estar profundamente cientes dessa autoridade. De forma alguma você será capaz de praticar ou desfrutar da Inatividade Controlada se não tiver este fundamento no lugar.

Ambas as palavras – Inatividade Controlada – são importantes. Primeiro, você deve ter o controle de seus filhos e sua autoridade no lugar, antes que você possa praticar uma passividade (inatividade) sábia, permitindo-lhes um ambiente arejado – um ambiente para explorar, aprender e crescer dentro de seus limites.

Praticar apenas a parte Controlada resultará naquele espírito agitado e inquieto que Charlotte descreveu. Você vai se colocar em um estado mental de estresse ao tentar controlar cada pequena coisa que cada criança faz todos os dias (para não mencionar o fato de que deixará as crianças enlouquecidas)! Mas, decidir ignorar sua autoridade dada por Deus e apenas ser Inativo por pura preguiça ou egoísmo resultará em desastre.

Você precisa de Inatividade Controlada – nessa ordem, e em equilíbrio.

O Equilíbrio

Eu me lembro de duas festas das quais participei quando criança.

A primeira foi uma festa do pijama, em que eu vi a mãe que estava responsável somente uma vez: no café da manhã. O restante do tempo, nós, meninas, fomos deixadas à vontade para fazer tudo e qualquer coisa que desejássemos. E acredite, nós fizemos.

A outra festa foi como usar uma camisa de força. A mãe que estava responsável tinha todas as atividades cronometradas por minuto, e não nos permitiu um dedo sequer de liberdade para contribuir com o cronograma ou alterar qualquer atividade. Aquela pobre mãe estava tão preocupada e nervosa sobre aquele tempo de confraternização que rapidamente deixou todas as crianças igualmente irritadas e nervosas.

Dois extremos. Entre eles está o feliz estado da Inatividade Controlada.

Então, o que exatamente é Inatividade Controlada? Charlotte desdobrou suas muitas facetas, descrevendo tanto o que é quanto o que não é. Em cada artigo desta série, resumiremos em frases o que ela é e o que ela não é.

Inatividade Controlada “não tem nada a ver com a atitude laissez aller, que vem de pensar ‘o que é bom?’” É tão fácil cair nessa atitude de derrota. Mas derrota não é o mesmo que Inatividade Controlada.

“E, além disso, está longe de se assemelhar a pura indolência de mente, que deixa as coisas acontecerem ao invés de se dar ao trabalho de conduzi-las a algum fim.” Indolência significa preguiça! Inatividade Controlada não é o mesmo que permitir que as crianças corram soltas apenas porque segurar as rédeas requer esforço. Educar os filhos bem exige trabalho e decisões intencionais.

Wordsworth usava a frase “passividade sábia” para enfatizar o que é Inatividade Controlada. Observe a palavra “sábia”. Muitos pais exercem a passividade, mas, na maioria das vezes, ela não é sábia.

A sabedoria vem do discernimento. De fato, Charlotte observou que a Inatividade Controlada deve envolver “discernimento e autodomínio”. Essas duas palavras são os elementos que faltaram nas duas festas das quais participei.

A primeira mãe, que nos deixou fazer o que desejamos, não tinha ideia do que estávamos pensando ou querendo. Você tem discernimento sobre o que seus filhos estão pensando e fazendo? Se não, proponha-se a se tornar estudante de seus filhos. Estude-os e aprenda como cada um deles age.

A segunda mãe, que dirigiu a festa como um sargento, não exercia autodomínio.

Uma vez que a festa estava organizada, ela precisava restringir sua tendência natural de dominar tudo, e simplesmente permitir-nos desfrutar da companhia uns dos outros no ambiente que ela havia criado.

Discernimento e autodomínio. Grandes qualidades que um pai precisar ter… ou um anfitrião de festas.

A Cerca da Autoridade

Um quintal cercado pode ser algo maravilhoso quando temos filhos pequenos. Pergunte a qualquer mãe que tenha passado um dia quente de verão correndo atrás de seu cão terrier aventureiro e de seu filhinho exaustivamente ativo. Cercas são boas.

Como pais, nossa “cerca” de autoridade deve estar em seu lugar, se quisermos ser capazes de desfrutar da Inatividade Controlada. Charlotte Mason disse: “O senso de autoridade é o sine quâ non [essencial] da relação parental, e não garanto que sem isso nossas atividades ou nossa inatividade produzirão grandes resultados”.

Inatividade Controlada não é uma solução rápida que resolve todos os nossos problemas de disciplina. É um privilégio desfrutado porque já abordamos questões disciplinares. Devemos estabelecer os limites que protegerão e nutrirão os filhos que Deus nos deu.

Não é nossa opção negligenciar ou ignorar esses limites, porque nós mesmos estamos sob a autoridade de Deus. Devemos obedecer Sua autoridade assim como nossos filhos devem obedecer a nossa. Charlotte enfatizou: “Este elemento poderoso é a espinha dorsal da nossa posição”.

Sem essa cerca, nós nos relegamos a uma vida de perseguição, persuasão, suborno e troca. E relegamos nossos filhos a uma vida de suposições, mais suposições, pressão e conivência.

Quando nossos filhos perceberem que não é uma questão de “mamãe está fazendo o que quer”, mas sim de “mamãe não pode romper o limite, porque ela tem que obedecer a Deus”, eles vão aprender o que significa ser livre.

Como Charlotte explicou: “Eles estão livres sob autoridade, que é verdadeira liberdade; ser livre sem autoridade é licenciosidade”. Eles são livres para correr e explorar dentro dos limites seguros da nossa cerca. Mas, eles não são livres para derrubar a cerca e correr soltos.

Uma vez que essa questão esteja resolvida, eles não terão que gastar todo o seu tempo choramingando e tentando manipular a mamãe a derrubar a cerca. Sob a autoridade de Deus, a mamãe não está autorizada a permitir que seu filho desobedeça. Ela está em uma missão dada por Deus e deve cumprir seu dever. A autoridade da mamãe e do papai não é negociável.

Portanto, se você estiver no estágio de construção de cercas para os pequeninos, marque claramente os limites, sabendo que você está operando sob a autoridade de Deus. Seja fiel para estabelecer agora a sua autoridade, dada por Deus.

E se seus pequenos já são mais velhos e estão questionando sua autoridade, tenha ânimo. Não é tarde demais para reparar essa cerca. Peça a Deus as ferramentas certas e trabalhe com vontade.

Cercas são boas.

Bom Humor

Você já ouviu falar do jogo “Mãe, eu posso?” Aquele “jogo” de importunar e choramingar, “Mãe, posso ficar acordado até mais tarde hoje? Por favooooooor, por favor, por favor? Todos os meus amigos estão fazendo isso e…” Talvez até você mesmo tenha feito esse jogo com sua mãe.

Hoje em dia, você pode ver a mesma situação em sua casa no momento dos estudos. “Mãe, eu ainda não completei minha tarefa. Eu sei que você disse que hoje era o prazo final, mas vou precisar de mais alguns dias”.

Você responde Sim ou Não? Quais são os fatores que influenciam essa decisão? Você conhece a diferença na voz do seu filho quer ele esteja enganando e manipulando ou esteja respeitosamente apresentando um pedido para que sua autoridade considere. Sua posição como autoridade pode fazer toda a diferença.

Charlotte deu o seguinte exemplo: “Oh, mãe, podemos colher amoras esta tarde, em vez de fazermos a lição?” O “sim” controlado e o “sim” abjeto são respostas bastante diferentes. O primeiro torna a pausa duplamente deliciosa; o segundo produz na criança um desejo inquieto de obter alguma outra vitória fácil”.

Percebe? O pai cuja autoridade não está firmemente no lugar, nesse tipo de situação, sente mais como se estivesse “cedendo” do que concedendo um favor. Um pai cuja autoridade é segura sabe que conceder um favor não o afetará. Ele ainda está no comando. E obterá alegria por ser capaz de agradar seus pequenos desta forma, com um favor especial.

Charlotte chamou este aspecto da Inatividade Controlada de “bom humor – humor sincero, cordial, natural, bondoso. Isso é uma coisa completamente diferente de complacência excessiva, e de rendição completa a todos os caprichos das crianças. O primeiro é o resultado da força, o segundo da fraqueza, e as crianças são muito rápidas para perceber a diferença”.

Da próxima vez que seus filhos quiserem  jogar este tipo de “Mãe, eu posso?”, pergunte a si mesmo se você sente que está cedendo às exigências deles. Você está apenas tentando fazê-los parar de choramingar, ou, você tem medo de que eles não gostem mais de você se disser “Não”? Esse sentimento é um sinal de que você não está operando a partir de uma posição de Inatividade Controlada.

Por outro lado, quando seus filhos perguntam: “Mãe, eu posso?”, você sente que, a partir de uma segura posição de autoridade benevolente, você lhes está concedendo um favor? Essa é a posição que garante bom humor tanto para você quanto para seus filhos.

Retirado de Educação em Família

Reproduzido e traduzido com a permissão de Simply Charlotte Mason.

Traduzido por Arielle Pedrosa

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s