20 Princípios da Filosofia de Charlotte Mason

Nas próprias palavras de Charlotte, estes princípios tratam-se “de um breve resumo da teoria de educação apresentada nos volumes da série Educação no Lar. O tratamento não é metódico, mas incidental; um pouco aqui, um pouco ali, como me pareceu mais apropriado para atender as necessidades dos pais e professores. Devo acrescentar que, no decurso de uma série de anos, vários ensaios foram preparados para uso da União Educacional Nacional de Pais, na esperança de que essa Sociedade possa testemunhar um corpo de pensamento educacional mais ou menos coerente.”

“Grande é a conseqüência da verdade, portanto o seu julgamento não deve ser negligente.”  Whichcote

Charlotte Mason

Leslie Noelani Laurio

1. As crianças nascem pessoas. 1. As crianças nascem pessoas – não são tábuas em branco ou ostras embrionárias que têm o potencial de se tornarem pessoas. Eles já são pessoas.
2. Elas não nascem boas ou más, mas com possibilidades para o bem ou para o mal.

2. Embora as crianças nasçam com uma natureza pecaminosa, elas não são nem totalmente ruins, nem totalmente boas. Crianças de todas as esferas da vida e origens podem fazer escolhas para o bem ou para o mal.

Nota: Este princípio não deve ser entendido como uma posição teológica sobre a doutrina do pecado original, mas como uma crença de que mesmo as crianças pobres que antes eram consideradas incapazes de viver vidas honestas poderiam escolher o certo a partir do errado se fossem ensinadas. Charlotte Mason era um membro em boa posição da Igreja Anglicana da Inglaterra, cujos Trinta e Nove Artigos inclui esta declaração: “O pecado original não consiste na imitação de Adão; é, porém, a falta e corrupção da Natureza de todo o homem gerado naturalmente da semente de Adão; pelas quais o homem dista muitíssimo da retidão original e é de sua própria natureza inclinado ao mal”.

3. Os princípios da autoridade, por um lado, e da obediência, por outro, são naturais, necessários e fundamentais; mas 3. Os conceitos de autoridade e obediência são verdadeiros para todas as pessoas, quer os aceitem ou não. Submissão à autoridade é necessária para que qualquer sociedade ou grupo ou família funcione com tranquilidade.
4. Esses princípios são limitados pelo respeito devido à personalidade das crianças, a qual não deve ser usurpada, seja por medo ou amor, sugestão ou influência, ou por jogo indevido sobre qualquer desejo natural. 4. Autoridade não é uma licença para abusar das crianças, ou para brincar com suas emoções ou outros desejos, e os adultos não são livres para limitar a educação de uma criança ou usar o medo, o amor, o poder de sugestão, ou a sua própria influência sobre uma criança para fazer com que ela aprenda.
5. Portanto, estamos limitados a três instrumentos educacionais – a atmosfera do ambiente, a disciplina do hábito e a apresentação de ideias vivas. 5. Os únicos meios que um professor pode usar para educar as crianças é o ambiente natural da criança, a formação de bons hábitos e a exposição a id[eias e conceitos vivos. É o que significa o lema de Charlotte Mason: “Educação é uma Atmosfera, uma Disciplina, uma Vida”.
6. Declarar que “Educação é uma atmosfera”, não significa dizer que uma criança deve ser isolada no que pode ser chamado de “ambiente infantil” especialmente adaptado e preparado; mas que devemos levar em conta o valor educacional da atmosfera natural de seu lar, tanto em relação às pessoas quanto às coisas, e devemos deixá-la viver livremente em meio às suas próprias condições. Rebaixar o mundo de uma criança a um nível “infantil” a faz definhar. 6. “Educação é uma Atmosfera” não significa que devemos criar um ambiente artificial para as crianças, mas que usamos as oportunidades no ambiente em que ela já vive para educá-la. As crianças aprendem com as coisas reais no mundo real.
7. Por “Educação é uma disciplina”, refiro-me à disciplina de hábitos formados definitivamente e conscientemente, quer sejam hábitos da mente ou do corpo. Os fisiologistas nos falam da adaptação da estrutura cerebral às linhas habituais de pensamento – isto é, aos nossos hábitos. 7. “Educação é uma Disciplina” significa que treinamos uma criança para ter bons hábitos e autocontrole.
8. Ao dizer que a “Educação é uma vida”, a necessidade de sustento intelectual, moral, tanto quanto físico, está implícita. A mente se alimenta de ideias e, portanto, as crianças devem ter um currículo generoso. 8. “Educação é uma Vida” significa que a educação deve se aplicar ao corpo, à alma e ao espírito. A mente precisa de ideias de todos os tipos, portanto o currículo da criança deve ser variado e generoso com muitos assuntos incluídos.
9. Mas, a mente de uma criança não é um mero saco de guardar ideias; mas sim, se me permitem usar esta figura, um organismo espiritual, com um apetite por todo conhecimento. Essa é a sua dieta apropriada, com a qual está preparada para lidar, e a qual pode digerir e assimilar, tal como o corpo faz com os alimentos. 9. A mente da criança não é uma tábua em branco, ou um balde a ser preenchido. É uma coisa viva e precisa de conhecimento para crescer. Da mesma forma que o estômago foi projetado para digerir o alimento, a mente foi projetada para digerir o conhecimento, e não precisa de treinamento especial ou exercícios para que esteja apta a aprender.
10. Tal doutrina, como defendida por Herbart, de que a mente é um receptáculo em que ideias devem ser lançadas, cada ideia acrescentando a uma “massa de apercepção” de seus semelhantes, lança sobre o professor o estresse da educação – a preparação do conhecimento em pedaços atraentes, apresentados na devida ordem. Crianças ensinadas segundo este princípio correm o risco de receber muito ensino com pouco conhecimento; e o axioma do professor é: “O que uma criança aprende importa menos do que a forma como ela aprende.” 10. A filosofia de Herbart, de que a mente é como uma plataforma vazia esperando para ser preenchida por pedaços de informação coloca uma responsabilidade muito grande sobre o professor, que precisa preparar lições detalhadas que as crianças não aprendem de qualquer maneira, a despeito de todo o esforço do professor.
11. Mas, acreditando que a criança normal tem os poderes mentais apropriados para lidar com todo o conhecimento que lhe é próprio, devemos dar a ela um currículo completo e generoso; cuidando apenas para que o conhecimento que lhe é oferecido seja vital – ou seja, os fatos não sejam apresentados sem suas ideias esclarecedoras. 11. Em vez disso, acreditamos que as mentes das crianças são capazes de digerir o conhecimento real, por isso fornecemos um currículo rico e generoso que expõe as crianças a muitas ideias e conceitos vivos e interessantes.

12. A Educação é a Ciência das Relações; isto é, uma criança tem relações naturais com um grande número de coisas e pensamentos, por isso devemos treiná-la em exercícios físicos, natureza, artesanato, ciência e arte e em muitos livros vivos; pois sabemos que a nossa tarefa não é ensiná-la tudo sobre qualquer coisa, mas ajudá-la a tornar válidas, tanto quanto possível“Aquelas afinidades primogênitas,

Que ajustam nossa nova existência às coisas existentes.”

12. “Educação é a ciência das relações” significa que as crianças têm mentes capazes de fazer suas próprias conexões com o conhecimento e as experiências, por isso, devemos nos certificar de que a criança aprenda sobre natureza, ciência e arte, saiba como fazer coisas, leia muitos livros vivos e estejam fisicamente saudáveis.

13. Ao conceber um programa de curso para uma criança normal, qualquer que seja a classe social, três pontos devem ser considerados:(A) Ele requer muito conhecimento, pois a mente precisa de alimento suficiente, assim como o corpo.

(B) O conhecimento deve ser variado, pois a mesmice na dieta mental não cria apetite (ou seja, curiosidade)

(C) O conhecimento deve ser comunicado em linguagem bem escolhida, porque sua atenção responde naturalmente ao que é transmitido na forma literária.

13. Na elaboração de um currículo, oferecemos uma vasta quantidade de ideias para garantir que a mente tenha bastante alimento cerebral, conhecimento sobre uma variedade de coisas para evitar o tédio, e assuntos ensinados com linguagem literária de alta qualidade visto ser isso ao que melhor responde a atenção da criança.
14. Como o conhecimento não é assimilado até que seja reproduzido, as crianças devem “recontar” após escutar ou ler uma única vez: ou devem escrever sobre alguma parte do que leram. 14. Uma vez que uma pessoa não “possui” realmente um conhecimento até que possa expressá-lo, as crianças são solicitadas a narrar, ou recontar (ou escrever), o que leram ou ouviram.
15. Devemos insistir em uma única leitura, porque as crianças têm naturalmente grande poder de atenção; mas este poder é dissipado pela re-leitura de passagens, e também, por questionamentos, resumos e semelhantes. 15. As crianças devem narrar após lerem ou escutarem a leitura de um livro. As crianças naturalmente têm bom foco de atenção, mas permitir uma segunda leitura as torna preguiçosas e enfraquece sua capacidade de prestar atenção na primeira vez. Resumos de professores ou perguntas de compreensão são outras maneiras de dar às crianças uma segunda chance e tornar a necessidade de focalizar a primeira vez menos urgente. Ao solicitar a narrativa pela primeira vez, menos tempo é desperdiçado em leituras repetidas, e mais tempo está disponível durante o horário escolar para mais conhecimento. Uma criança educada desta forma aprende mais do que as crianças usando outros métodos, e isso é verdade para todas as crianças, independentemente do seu QI ou contexto.
16. Há também dois segredos de autogestão moral e intelectual que devem ser oferecidos às crianças; podemos chamá-los de “Caminho da Decisão” e “Caminho da Razão”. 16. As crianças têm dois guias para ajudá-las em seu crescimento moral e intelectual – “o caminho da decisão” e “o caminho da razão”.
17. O Caminho da Decisão: as crianças devem ser ensinadas (a) a distinguir entre ‘eu quero’ e ‘eu decido’; (b) que o caminho da decisão trata-se, efetivamente, de desviar nossos pensamentos daquilo que queremos, mas não decidimos; (c) que a melhor maneira de desviar nossos pensamentos é pensar ou fazer algo muito diferente, divertido ou interessante; (d) que, depois de um pouco de descanso desta maneira, a decisão volta a atuar com novo vigor.(Esse suplemento à decisão nos é familiar na forma de diversão, cuja função é aliviar-nos por um tempo do esforço da decisão, para que possamos voltar a ‘decidir’ com poder acrescentado. O uso de sugestão – incluindo a auto-sugestão – como um auxílio à decisão, deve ser depreciado, pois visa estultificar e estereotipar o caráter. Aparentemente, a espontaneidade é uma condição do desenvolvimento, e a natureza humana precisa da disciplina de fracasso tanto quanto do sucesso.) 17. As crianças devem aprender a diferença entre “eu quero” e “eu decido”. Eles devem aprender a distrair seus pensamentos quando tentados a fazer o que querem, mas que sabem que não está certo, e pensar em outra coisa, ou fazer outra coisa, interessante o suficiente para ocupar sua mente. Depois de uma curta diversão, sua mente será refrescada e capaz de decidir com força renovada.
18. O Caminho da Razão. – Também devemos ensinar as crianças a não “se apoiarem” (com muita confiança) “em seu próprio entendimento”, porque a função da razão é dar uma demonstração lógica (a) da verdade matemática; e (b) de uma ideia inicial, aceita pela decisão.No primeiro caso, a razão é, talvez, um guia infalível, mas, no segundo, ela não é sempre segura, pois, quer a ideia inicial esteja certa ou errada, a razão a confirmará por meio de provas que não serão contestáveis.

18. As crianças devem aprender a não se apoiar demasiado em seu próprio raciocínio. O raciocínio é bom para demonstrar logicamente a verdade matemática, mas inseguro quando julgamos ideias porque nosso raciocínio justificará todos os tipos de ideias errôneas se realmente quisermos acreditar nelas.

 

19. Portanto, à medida em que amadurecem o suficiente, as crianças devem ser ensinadas a entender tal ensinamento de que a principal responsabilidade que repousa sobre elas como pessoas é a aceitação ou rejeição de ideias iniciais. Para ajudá-las nessa escolha, devemos dar-lhes princípios de conduta e uma ampla gama de conhecimentos apropriados a eles. Esses princípios devem salvar as crianças de alguns pensamentos vagos e ações descuidadas, que fazem com que a maioria de nós viva em um nível inferior àquilo que precisamos. 19. Sabendo que a razão não é confiável como a autoridade final na formação de opiniões, as crianças devem aprender que sua maior responsabilidade é escolher quais ideias aceitar ou rejeitar. Bons hábitos de comportamento e muito conhecimento proporcionará a disciplina e experiência para ajudá-los a fazer isso.
20. Não devemos permitir o surgimento de qualquer separação entre a vida intelectual e “espiritual” das crianças; mas devemos ensiná-las que o Espírito Divino tem acesso constante aos seus espíritos, e é um contínuo Ajudador em todos os seus interesses, deveres e deleites da vida. 20. Ensinamos às crianças que todas as verdades são verdades de Deus, e que os assuntos seculares são tão divinos quanto os religiosos. As crianças não vão de um lado para o outro entre dois mundos quando se concentram em Deus e depois em seus assuntos escolares; há unidade entre ambos, porque ambos são de Deus e, o que quer que as crianças que estudem ou façam, Deus está sempre com eles.

Reproduzido e traduzido com a permissão de Leslie Noelani Laurio, do site Ambleside Online

Traduzido por Arielle Pedrosa

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