Método

“O Método de Charlotte Mason” por Sonya Shafer

O método Charlotte Mason é baseado na crença firme de Charlotte que a criança é uma pessoa e devemos educar a pessoa inteira, e não apenas sua mente. Assim, a educação proposta por Charlotte Mason tem tripla abordagem: em suas palavras, “A educação é uma atmosfera, uma disciplina, uma vida”.

Uma Atmosfera, Uma Disciplina, Uma Vida

Por “atmosfera”, Charlotte se referia ao ambiente em que a criança cresce. Uma criança absorve muito de seu ambiente doméstico. Charlotte acreditava que as ideias que regem a vida dos pais compõem um terço da educação do filho.

Por “disciplina”, Charlotte se referia a disciplina de bons hábitos — e, especificamente, aos hábitos de caráter. Cultivar bons hábitos na vida do filho compõe outro terço de sua educação.

O outro terço da educação, “vida”, aplica-se às questões acadêmicas. Charlotte acreditava que devemos dar às crianças pensamentos e ideias vivas, não apenas fatos secos. Então, todos os seus métodos para ensinar as várias disciplinas escolares são construídos em torno deste conceito.

Métodos Vivos

Os alunos de Charlotte, por exemplo, usavam livros vivos em vez de livros secos. Livros vivos geralmente são escritos em forma de narrativa ou de história, por um autor que é apaixonado pelo seu tema. Um livro vivo faz o assunto “ganhar vida”.

E os alunos eram obrigados a dizer algo em retorno, ou narrar, em suas próprias palavras o que foi lido no livro vivo, a fim de mantê-lo em suas mentes. Eles não tinham múltiplas escolhas ou a opção de deixar a história cair no vazio; invés disso, praticavam usar linguagem rica enquanto apontavam as ideias que haviam colhido da leitura e quaisquer conexões mentais que haviam feito entre a leitura e outras ideias já residentes em suas mentes e corações em crescimento.

Ela ensinou caligrafia e ortografia usando trechos de grandes livros que comunicavam grandes ideias em vez de usar apenas uma lista de palavras.

Ela incentivou passar tempo ao ar livre, interagindo com a criação de Deus em primeira mão e aprender os caminhos vivos da natureza.

Ela apresentou o trabalho de grandes artistas e compositores a seus alunos e deixou que passassem tempo com cada um, a fim de conhecerem suas obras pessoalmente.

Ela dispôs diante de seus alunos um banquete de ideias a partir de uma ampla variedade de fontes — de Shakespeare ao tricô, à Bíblia, ao vagar pelo campo, e do riacho à álgebra, ao canto, aos outros idiomas. E entrelaçado a tudo isso, ela enfatizou os hábitos da atenção total, do melhor esforço, da aprendizagem pela causa da aprendizagem.

Tudo planejado para ajudar a criança a crescer; pois aprendemos para crescer.

Não é de admirar que muitos homeschoolers adotaram sua filosofia e métodos na medida em que procuram educar a criança toda!

Dê uma olhada nesta tabela para ver a variedade de assuntos incluídos em uma educação Charlotte Mason, juntamente com os métodos que ela usava para ensinar cada um.

Assunto Método
Princípios básicos para todas as disciplinas lições curtas; hábitos de atenção e execução perfeita; ordem variada de temas
História livros vivos; narração; livro dos séculos
Geografia Livros vivos; narração; trabalho de mapeamento
Bíblia leitura audível; narração (discussão para crianças mais velhas); memorização e recitação regular
Matemática tarefas com manipulação; um firme entendimento do porquê
Ciência estudo da natureza; livros vivos; narração
Outros idiomas ouvir e falar, e então, ler e escrever
Escrita exercício de cópia para caligrafia; narração oral e escrita para redação
Soletração construção de palavras; exercício de cópia; ditado preparado
Gramática não é estudada de maneira formal até os dez anos
Artes estudo de imagens para apreciação da arte; instrução em artes; artesanato
Música estudo de música para apreciação musical; instruções instrumentais; canto
Literatura livros vivos; narração
Poesia leitura audível e frequente deleite; memorizar e recitar ocasionalmente (incluindo Shakespeare)

A Educação é uma Atmosfera

“Eu simplesmente não sei o que fazer com meu filho”, Evelyn confidenciou. “Estamos constantemente batendo de frente, o que nos leva a uma competição de gritos e acabamos saindo da sala. É de admirar que cheguemos a concluir alguma tarefa!”

Evelyn encontraria ajuda no conselho de Charlotte, de que “A educação é uma atmosfera.” Todos nós sabemos como a atmosfera da casa pode afetar o nosso dia de tarefas escolares. No caso de Evelyn, uma atmosfera de conflito está prevalecendo.

O fato é que muito do que uma criança aprende, ela aprende assistindo e ouvindo aqueles ao seu redor. Lembra-se do ditado: “Mais coisas são apreendidas do que aprendidas”? As ideias que regem a sua vida como pai vão contagiar seu filho.

Portanto, a pergunta que não quer calar: “Que ideias governam sua vida?” O seu filho está aprendendo que a raiva é a maneira de responder ao conflito, ou ele está imerso em uma atmosfera de pacificação? Ele está sendo educado na “arte” da preocupação e da ansiedade, ou ele está aprendendo a confiar no Senhor, mesmo nas pequenas coisas da vida? Será que ele pensa que o aprendizado acaba quando se adquire o diploma, ou ele está vendo o seu desejo e amor por aprender como um adulto?

É fácil se prender à leitura, escrita e aritmética e esquecer que os nossos filhos estão nos observando dia após dia. Agora, eu não acredito que Charlotte desejava jogar a culpa sobre os pais, afirmando que a educação é uma atmosfera. Ela só queria ter certeza de que perceberíamos que as ideias que governam nossas vidas desempenham um grande papel no que nossas crianças aprendem de nós. A verdade é que todos nós precisamos deste lembrete gentil, com bastante frequência, nos empurrando de volta para caminho certo.

A Educação é uma Disciplina

A Primeira Chave para os Bons Hábitos: Repetição

Algumas noites atrás, minha filha e eu tivemos o prazer de assistir dois bailarinos, o marido e sua mulher, executando uma das minhas peças favoritas de Beethoven. Os movimentos deles eram absolutamente lindos! Sabíamos que eles estavam alongando e tencionando seus músculos ao máximo, mas, ainda assim, eles faziam tudo parecer gracioso e até mesmo fácil.

Mais tarde, durante uma entrevista, descobrimos que eles praticavam de sete a oito horas por dia. De certa forma, isso não é surpreendente. Todos nós esperamos que a repetição de movimentos físicos fará com que essas ações sejam mais fáceis de executar. Mas, o que muitas vezes esquecemos é o fato de que o que é verdade no mundo dos esportes também é verdade no mundo do hábito diário.

Hábitos Vêm Com a Prática

Como Charlotte Mason explicou:

“Sabemos bem o suficiente como isto se aplica à patinagem, ao hóquei, etc. Dizemos que queremos praticar, ou, que estamos fora de prática, e que devemos começar a praticar; mas não percebemos que, em todos os assuntos da nossa vida, a mesma coisa é válida. Aquilo que temos prática em executar, conseguimos fazer com facilidade, enquanto temos dificuldades em relação às coisas que praticamos pouco.

“Esta é a lei do hábito, que é válida tanto em relação a prática de gentilezas como em relação a tocar piano. Ambos os hábitos vêm pela prática” (Vol. 4, Livro 1, p. 208).

Assim, a primeira chave para se formar um bom hábito é repetir essa ação com a máxima frequência possível. Deus fez os nossos cérebros para formar conexões neurais para cada ação. Quanto mais vezes repetimos uma ação, mais permanente essa conexão neural se torna até que, finalmente, ele dispara sem o nosso esforço consciente — se torna um hábito.

Assim como executar determinadas ações na quadra de vôlei pode se tornar algo natural para uma criança, abrir a porta para sua mãe e irmãs ou obedecer seus pais na primeira vez que eles falam também pode. Praticar torna algo permanente. Repetir torna algo habitual.

Certifique-se que seus filhos tenham muitas oportunidades de repetir o hábito em que sua família está se concentrando por um total de seis a oito semanas e você vai começar a perceber os resultados desta boa prática.

“E é muito agradável lembrar disso: cada vez que fazemos uma coisa contribuímos para a formação de um hábito; e fazer uma coisa cem vezes sem perder a chance, torna o resto fácil”. (Vol. 4, Livro 1, pp. 208, 209).

A segunda chave para bons hábitos: Motivação

Na semana passada discutimos o quanto a repetição é importante para a formação de um novo hábito. Assim como horas praticando uma pirueta torna mais fácil executá-la, assim também muita prática em uma nova habilidade — como levantar-se em um determinado horário na parte da manhã — torna mais fácil realizá-la. Praticar torna algo permanente. Repetir torna algo habitual.

Mas há uma outra chave para formar um novo hábito, e esta chave é igualmente importante, se não mais: temos de ter razão suficiente para querer formar um novo hábito. Algo ou alguém tem de me motivar para que eu queira começar a me levantar em determinado horário!

Fazendo Valer a Pena

Charlotte Mason reconheceu esse fato:

” ‘Semeie um hábito, colha um caráter’. Mas devemos dar um passo anterior a esse: temos de semear a ideia ou pensamento que fará o ato valer a pena” (Vol. 6, p. 102).

Veja, ideias são poderosos motivadores! Quando a semente de uma ideia cria raízes em nossa mente ou nas mentes de nossos filhos, ela pode redundar em uma colheita abundante. Começamos a imaginar com o que essa ideia pode se parecer em nossas próprias vidas, e sentimos a nossas emoções se agitarem na medida em que sonhamos com o que o futuro nos reserva por esse caminho.

Lemos um livro ou um blog que fala sobre tornamos nossas casas recantos acolhedores de beleza e paz. Nossos corações se agitam com o desejo de colocar isso em prática, e então começamos a imaginar como seria em nossos próprios ambientes. Esses pensamentos crescem em reflexões sobre o que seria necessário para tornar essa imagem em realidade. E, agora, temos uma profunda motivação para começar a fazer mudanças e formar um novo hábito ou dois, a fim de viver essa ideia.

Ou nossos filhos leem uma história bem escrita sobre uma mulher que nunca estava satisfeita, mas continuava cobiçando mais e mais, até que tudo o que tinha desapareceu; e eles refletem sobre essa ideia enquanto veem um catálogo de brinquedos ou fazem uma lista de aniversário. E o hábito do contentamento começa a crescer.

Ou eles escutam um belo poema sobre a criação de Deus e sobre o deleite que se pode encontrar ao ar livre, e eles começam a desejar aquele deleite para si mesmos e a pensar em como poderiam passar mais tempo contemplando a natureza nos próximos dias. O hábito da vida ao ar livre começa a criar raízes.

O fato é que você nunca sabe quando uma ideia vai se aninhar e começar a crescer, mas como Charlotte nos lembra, seriamos tolos se deixássemos isso ao acaso. “O que os pais semeiam? Ideias” (Vol. 2, p. 29). Como pais, devemos sempre semear aquelas ideias boas, amorosas e nobres nos corações de nossos filhos regular e intencionalmente, para motivá-los aos bons hábitos.

A Educação é uma Vida

Fatos vs. Ideias

Lembro-me de estar sentada em meio ao nosso grupo de discussão sobre educação domiciliar pelo método Charlotte Mason, explicando como um livro vivo fornece ideias aos nossos filhos, e não apenas fatos. Uma querida senhora virou intrigada, olhando em minha direção, e perguntou: “O que você quer dizer com ‘ideias’?”

Essa pergunta me fez dar uma pausa. É fácil pensar em “ideias” como “o oposto de fatos” ou “qualquer coisa que torne a história viva”. Mas, quando você começa a se aprofundar, como você define “ideia”, no sentido em que Charlotte Mason usava essa palavra?

Bem, esta semana tive um momento “ah-há” que me ajudou a obter uma melhor compreensão sobre este assunto: “fatos vs. Ideias”, que é tão fundamental no método Charlotte Mason.

Um exemplo de Fatos vs. Ideias

Vamos pegar um personagem bíblico que a maioria de nós já conhece a fim de ilustrar a diferença. Vamos olhar para José.

Em um resumo comum dos fatos da vida de José podemos ler algo assim:

José, o décimo primeiro filho e o favorito de Jacó, foi vendido como escravo por seus irmãos e levado para o Egito. Porque ele interpretou corretamente os sonhos do Faraó, foi nomeado o segundo no comando de toda aquela terra. Sua boa gestão dos recursos resultou na sobrevivência do Egito durante uma fome de sete anos e, finalmente, na salvação de toda a sua família da fome.

Se lermos a história de José, contada como uma narrativa em Gênesis 37-50, vamos obter os fatos, sim; mas também podemos obter a partir dela todos os tipos de ideias, como estas:

* relações interfamiliares e rivalidade entre irmãos; como esta rivalidade pode ser inflamada por palavras e ações,

* diligência e lealdade nas responsabilidades atribuídas,

* às vezes boas escolhas provocam situações dolorosas,

* Deus está no controle,

* as circunstâncias podem mudar em um único momento,

* as pessoas vão decepcioná-lo,

* perdão,

* gestão de recursos na fartura e na fome,

* dar glória a Deus diante das autoridades; coragem.

Você provavelmente pode pensar em várias outras ideias que eu não listei aqui.

Percebe a diferença? Fatos são apenas coisas que aconteceram com outra pessoa. O relato factual deixa os aspectos da experiência emocional e humana fora da equação. Mas, as ideias são experiências e emoções humanas comuns que podemos relacionar a algo e das quais podemos aprender.

Com base nesse pequeno exercício, aqui está uma tentativa de definir “ideias” de acordo com o que Charlotte Mason tinha em mente:

Uma ideia viva é um pensamento ou sugestão quanto a um possível curso de ação; uma impressão mental que ajuda a moldar os processos de pensamento e as práticas de uma pessoa.

Não limite as Ideas

Essa rápida comparação resumiu a diferença em termos tão simples que eu pude envolver minha mente em torno dela. E então, como muitas vezes acontece, essa descoberta levou à outra.

De repente, ocorreu-me porque Charlotte muitas vezes alertava seus leitores contra a moralização de uma história. Quando tentamos moralizar, limitamos o nível de absorção para apenas uma ideia. Por exemplo, eu vi recentemente um livro sobre a história de Noé, e o subtítulo era “Uma lição de obediência.” Bem, sim, podemos encontrar na história de Noé a ideia de obediência, mas também há tantas outras ideias incluídas naqueles capítulos! Por que limitar a apenas uma?

Charlotte nos incentivou a partilhar a história com os nossos filhos e permitir que o Espírito Santo imprima neles qualquer ideia que seja necessária no momento certo. Bons livros vivos transbordam de ideias vivas. Quanto mais ideias forem apresentadas, mais ideias estarão disponíveis para moldar os pensamentos e as vidas de nossos filhos.

Então, da próxima vez que você estiver lendo um livro e tentando decidir se ele é bom, olhe para essas ideias. São as ideias sobre as experiências e emoções comuns que farão o livro “viver” para o seu filho.

Reproduzido e traduzido com a permissão de Simply Charlotte Mason.

Traduzido por Arielle Pedrosa

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