“As crianças não têm poder de  auto-convencimento” por Charlotte Mason

“Hábito é DEZ naturezas”. Se eu pudesse apenas fazer com que os outros vissem com meus olhos o quanto isso significa para o educador! Pois o hábito nas mãos da mãe, é como a roda para o oleiro, a faca para o escultor – o instrumento pelo qual ela pode tornar real o projeto que já concebeu em seu cérebro. Observe que o material já está ali para começar a obra; a roda não habilitará o oleiro a produzir uma xícara de porcelana em argila grosseira, mas o instrumento é tão necessário quanto o material ou o projeto.

É desagradável falar sobre si mesmo, mas se o leitor me permitir, gostaria considerar as etapas pelas quais fui levada a reputar o hábito como o meio pelo qual os pais podem fazer de seus filhos quase tudo o que escolherem. Aquilo que se tornou a ideia dominante da vida de uma pessoa, caso seja lançado repentinamente sobre outra, não transmitirá grande profundidade ou peso de significado a ela – a pessoa desejará obter essa ideia gradualmente, para enxergar as etapas pelas quais a outra viajou. Portanto, eu me arriscarei a mostrar como cheguei à minha posição atual, que posso resumir, de acordo com um dos três pontos de vista possíveis assim: A formação de hábitos é educação e a educação é a formação de hábitos.

Um Impasse Educacional.

Alguns anos atrás, estava acostumada a ouvir que “O hábito é DEZ naturezas” a partir do púlpito, em pelo menos um domingo a cada quatro. Na época, tinha apenas começado a lecionar e era jovem e entusiasmada em meu trabalho. Em minha concepção, ser professora era algo bastante importante; era impossível que a professora não deixasse sua marca nas crianças. A culpa era somente sua se algo desse errado, se alguma criança agisse maldosamente na escola ou fora dela. Não havia um grau de responsabilidade ao qual o ardor juvenil não fosse equivalente.

Mas, não obstante todo esse zelo, a coisa mais decepcionante foi que nada de extraordinário acontecia. As crianças eram boas de forma geral, porque eram filhas de pais que haviam sido criados com algum cuidado; mas estava claro que elas se comportavam essencialmente de acordo como “a sua natureza”. Os defeitos que possuíam se mantinham; as virtudes que tinham continuavam sendo exercidas com a mesma força de antes. A boa e dócil garotinha ainda contava mentiras. A criança brilhante e generosa era incuravelmente preguiçosa. As coisa era a mesma em relação às lições; a criança ociosa continuava ociosa, a criança néscia não se tornava mais brilhante.

Era muito decepcionante. As crianças, sem dúvida, “progrediam” – um pouco; mas cada uma delas já possuía em si os ingredientes de um caráter nobre, de uma boa mente. Onde estava a alavanca para elevar cada um desses pequenos mundos? Tal alavanca deveria existir.

Esta diligente rodada de geografia e francês, história e matemática não era mais do que brincar de educar; pois quem se lembra dos pedaços de conhecimento sobre os quais se debruçou quando criança? E não é verdade que aplicação de poucas horas na vida posterior é mais efetiva do que um ano de trabalho duro em relação a qualquer assunto durante a infância? Se a educação deve garantir o progresso e a carreira do indivíduo passo a passo, ela deve significar algo superior ao labor sobre pequenas tarefas diárias, conhecido por este nome.

Amor, Lei e Religião como Forças Educativas

Procurando orientação para a literatura da educação, aprendi muito de várias fontes, embora não consegui encontrar o que me pareceu um guia autoritativo, ou seja, aquele cujo pensamento abraçou as possibilidades contidas na natureza humana de uma criança e, ao mesmo tempo, mediu o escopo da educação. Eu notei como o ensino religioso ajudava as crianças, dava-lhes poder e motivos para o esforço contínuo, e conduzia seus desejos para as coisas mais elevadas. Eu notei  o quanto a lei restringia o mal e o amor impelia para o bem.

Mas, mesmo com esses grandes auxílios de fora e de cima, havia a sensação deprimente de trabalhar no escuro em prol da educação; o avanço feito pelos jovens em poder moral, e mesmo intelectual, era como o de uma porta presa às suas dobradiças – um balanço para frente hoje e para trás amanhã, com um pequeno razoável progresso de um ano para outro, além do progresso relacionado a capacidade de fazer somas mais difíceis e ler livros mais complicados.

As crianças são incapazes de um Esforço constante

A consideração fez com que o motivo do fracasso ficasse claro: havia um caloroso brilho de piedade no coração de cada uma daquelas crianças, mas eram todas incapazes de um esforço constante, porque não tinham força de vontade (decisão), nenhum poder para obrigar-se a fazer o que sabiam que deveriam fazer.

Aqui, sem dúvida, entram as funções dos pais e professores; eles deveriam ser capazes de fazer a criança praticar o que ela não tem poder para se obrigar. Mas, seria um treinamento deficiente aquele que mantivesse a criança dependente de uma influência pessoal. É dever da educação encontrar uma maneira de complementar essa fraqueza da vontade que é a desgraça da maioria de nós, bem como das crianças.

As crianças devem ser poupadas do Esforço da Decisão

Foi dito de púlpito várias vezes que o esforço de decisão é o esforço mais cansativo da vida; e se esta proposição permanece verdadeira em relação a nós, adultos, mesmo quando a decisão é sobre coisas insignificantes como ir ou vir, comprar ou não comprar, certamente não é justo conferir às crianças todo o trabalho de um esforço de vontade (decisão) sempre que tiverem que escolher entre o certo e errado.

Reproduzido e Traduzido do livro original Home Education

Traduzido por Arielle Pedrosa

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