Livros Vivos Para Crianças de Zero a Seis Anos (Parte I)

Caro leitor, minha proposta aqui é clarificar o significado de “livros vivos” na filosofia de Charlotte Mason. Devo deter-me, neste artigo, tão somente aos anos iniciais que precedem a educação formal da criança. Começarei (Parte I) apresentando alguns trechos extraídos dos Volumes 1 e 5 da série de livros Home Education de Charlotte Mason, para deixar claro que o tempo livre para brincar é a sua prioridade para esta idade, e que deveríamos prezar mais pela qualidade dos livros do que pela quantidade deles. Em seguida, mostrarei exemplos daqueles que não são livros vivos (Parte II) e, por fim, daqueles que realmente se enquadram nesta classificação (Parte III).

  1. Sobre a Filosofia de Charlotte Mason

Em seu primeiro volume de livros, Charlotte afirma:

“Quanto tempo ao ar livre as crianças devem ter diariamente? E como é possível garantir isso a elas? Nesses dias de extraordinária pressão educacional e social, talvez o primeiro dever de uma mãe para com seus filhos seja garantir-lhes um tempo de crescimento tranquilo, seis anos completos de uma acolhedora vida passiva e, a parte acordada desses anos, gasta principalmente ao ar livre. E isso não só para ganho em saúde corporal: corpo e alma, coração e mente, são alimentados com sua comida apropriada quando as crianças são deixadas à vontade para viver sem conflitos e estímulos em meio às alegres influências que as inclinam a serem boas.”

“Considerar a vida fora de casa no desenvolvimento de um método de educação, veio em segundo lugar, porque meu objetivo é mostrar que a principal função da criança – seu trabalho no mundo durante os primeiros seis ou sete anos de vida – é descobrir tudo o que pode sobre qualquer coisa que observe por meio de seus cinco sentidos; mostrar que a criança tem um apetite insaciável por todo conhecimento obtido desta maneira; e que, portanto, seus pais devem se esforçar para favorecer  o livre conhecimento da Natureza e dos objetos naturais; mostrar que, na verdade, a educação intelectual da jovem criança deve repousar sobre o livre exercício do poder perceptivo, porque os primeiros estágios do esforço mental são marcados pela excessiva atividade desse poder, e a sabedoria do educador consiste em seguir a liderança da Natureza no desenvolvimento do ser humano completo.”

Destas duas citações podemos concluir que, para Charlotte Mason, os primeiros seis anos da criança deveriam ser vividos de forma intensa, não diante de livros, mas diante da natureza e das coisas presentes em seu ambiente, para que ela pudesse captar o máximo de coisas por si mesma, sem a necessidade de intermediários.

Quer dizer, então, que os livros não são importantes? É claro que os livros têm seu lugar, mas a preocupação primária de Charlotte era formar na criança a capacidade de se maravilhar, apreciar e desfrutar de tudo o que é justo, verdadeiro e belo; e o contato com a natureza é fundamental para esse deslumbramento. Portanto, ao dispor literatura para as crianças pré-escolares, devemos ter isso em mente: o foco principal não é a obtenção de conhecimento em si, mas o amor pela vida. Por isso, em seu quinto volume, Charlotte afirma:

 “Por esse tipo de cultura [cultura doméstica], refiro-me não tanto à obtenção de conhecimento, nem mesmo à aquisição do poder de aprender, mas ao cultivo do poder de apreciar, de desfrutar de tudo o que é justo, verdadeiro e belo em pensamento e expressão…. Algumas crianças, por direito de descendência, buscam os livros como patos buscam a água; mas o deleitar-se em um bom pensamento, bem colocado, não se adquire naturalmente.”

E, para forjar nas crianças esta capacidade de apreciação, é preciso criar nelas o gosto pela literatura de valor desde o berçário:

 “O hábito da leitura casual, sobre o qual o Sr. John Lubbock diz palavras tão sábias e agradáveis, é uma forma discreta de dissipação intelectual, que faz mais mal do que percebemos. Muitos que não leriam sequer uma brilhante novela de um certo tipo, sentam-se para ler besteiras sem escrúpulos…. O prejuízo começa no berçário. Antes mesmo que uma criança consiga ler de fato, todos os hóspedes de pessoas amigáveis demonstram seu interesse nela, dando-lhe de presente um “livro bonito”. Um “livro bonito” não é necessariamente um livro de imagens, mas um em que a página esteja bem dividida em diálogos ou parágrafos curtos. Livros bonitos para a idade da sala de aula seguem a mesma ideia daqueles do berçário e, superados o berçário e a sala de aula, estamos prontos para as mais fáceis novelas de “Mudie”; a sucessão de “livros bonitos” nunca nos falta; não temos tempo para obras de fibra intelectual, e não temos mais poder de assimilação do que a aluna que se alimenta de cheesecakes… Nós permanecemos “leitores pobres” durante toda a nossa vida.”

“Proteja o berçário; não permita ali qualquer coisa que não possua verdadeiro sabor literário; que as crianças cresçam com alguns poucos livros lidos repetidamente, e que não tenham nenhum cuja leitura não custe um esforço mental considerável. Isto não é um sofrimento. Atividade e esforço, seja do corpo ou da mente, é uma alegria para a criança.”

Para finalizar, faço algumas observações pertinentes com relação a escolha de livros, segundo a filosofia de Charlotte.

  1. É melhor que a criança possua poucos livros excelentes, cuja leitura custará esforço mental, lançará as bases para os livros de alto valor literário que deverão ser lidos posteriormente, e cultivará um apreço pela beleza das palavras, do que ter muitos livros fáceis, superficiais, meramente divertidos, que estimulam na criança a preguiça mental e a obtenção de satisfação sem custo.
  2. É preferível que a criança tenha poucos livros, mas que sejam profundos, a fim de que ela possa se fundamentar neles e digeri-los com calma. “Fora com os livros e com a “leitura” – pelos primeiros cinco ou seis anos de vida. A infinita sucessão de livros de histórias, cenas, mudando como um panorama ante a vista da criança, é uma dissipação mental e moral; a criança não adquire um fundamento sobre o qual possa crescer, ou não tem oportunidade de digerir o que recebe. É também contrário à natureza.”
  3. É preciso buscar livros que vão estimular a imaginação a partir do texto ao invés de tornar a criança uma receptora meramente passiva e dependente de imagens.
  4. É importante que o livro eleve as impressões da criança, tanto no que diz respeito às questões estéticas (da beleza das imagens e do texto), quanto no que diz respeito às questões morais e emocionais. A história deve possuir ideias vivas, que inspirem na criança o apreço pela nobreza de caráter, pelas relações de amor e serviço, de autoridade e obediência, de bondade, pela virtude.

Se você gostou do texto ou ficou com alguma dúvida, por favor, deixe seu comentário. Semana que vem estaremos com a segunda parte do texto, em que eu vou mostrar exemplos do que não são livros vivos.

5 comentários em “Livros Vivos Para Crianças de Zero a Seis Anos (Parte I)

  1. Acho essa a parte mais dificil do método. Pela maneira que fui instruída, tenho dificuldade em identificar tais livros de qualidade. Espero que possa nos ajudar com indicacões em portugues, o que é ainda mais dificil.

    Curtir

    1. Obrigada Priscila. Infelizmente ainda não 😦 Eu realmente estive muito atarefada e não consegui continuar a série. Mas creio que em breve serão publicados! Um abraço.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s