Filosofia de Educação

Seria Charlotte adepta da Educação Natural?

Esse texto não pretende ser um ensaio, mas visa apenas lançar algumas considerações sobre o assunto que surgiu em nosso grupo/curso de Brasília. A dúvida, como diz o título do texto, é: “Seria Charlotte adepta da Educação Natural proposta por Rousseau, ou teria ela bebido de suas fontes?”

Dei uma volta pela internet para trazer a vocês uma explicação que pudesse resumir de maneira mais eficaz a proposta de Rousseau para que pudéssemos responder essa pergunta. O texto encontra-se neste link, e aqui colocarei algumas citações.

“Rousseau, um dos mais bem conceituados pensadores do Século XVIII, na sua obra Emílio ou da Educação, propõe um projeto para a formação de um novo homem e de uma nova sociedade, apresentando-nos os princípios gerais para uma educação de qualidade. A sua influência, no campo educacional, deve-se assim a esta obra. Nela, trata da educação de uma criança acompanhada de um preceptor que a auxiliará a ter uma educação conforme a natureza, preservando-a da sociedade corruptora… Deste modo, preconizando a educação conforme a natureza, Rousseau quer que o homem seja educado para si mesmo… Assim, é preciso pensar seriamente no significado da infância, para que se proporcione uma educação cujo processo será determinado pela natureza, dando atenção às diversas fases do seu desenvolvimento. Pois não devemos impor os saberes dos homens à criança; é preciso considerar cada um em seu lugar, ou seja, considerar o homem no homem e a criança na criança, sabendo-se que ambos são diferentes e têm suas próprias características… Seguindo esta linha de entendimento, compreendemos que a educação é um processo natural e não artificial. Portanto, a educação deve ser efetivada a partir do momento que se respeite o desenvolvimento natural da criança e não forçá-la a aprender coisas de adulto… Diante de tal contexto, Rousseau afirma que “O primeiro de todos os bens não é a autoridade, mas a liberdade. O homem verdadeiramente livre só quer o que pode e faz o que lhe agrada” (ROUSSEAU, 2004, P.81)… É importante mencionar que as paixões, que dominam e destroem o homem, não provem da natureza; o indivíduo é quem se apropria delas, tornando-se, assim, infeliz, pois a única que nasce com o homem é o amor de si, as outras são modificações. Nesse sentido, Rousseau afirma: “Fiz ver que a única paixão que nasce com o homem, o saber, o amor de si, é uma paixão em si mesma indiferente ao bem e ao mal, que se torna boa ou má a não ser por acidente e segundo as circunstâncias nas quais se desenvolve”. (ROUSSEAU in FORTES, 1989, p. 12). Pensando assim, compreendemos que, na natureza, tudo é correto: o homem é quem modifica tudo. Pois a fonte de nossas paixões é natural; as outras são modificações que se aglutinam a esta fonte natural.”

Cito aqui, agora, o que a própria Charlotte afirma, em um de seus livros (v.2, pg 65) em total oposição à proposta de Rousseau:

Nós Não Devemos Crescer Em Estado Natural

Precisamos enfrentar os fatos. Nós não devemos crescer em estado natural. Há algo simples, conclusivo, até mesmo idílico, na afirmação de que isso e aquilo é “natural”. O que mais seria necessário? Jean Jacques Rousseau pregou a doutrina da educação natural, e nenhum outro reformador teve tão grande número de seguidores. “É a natureza humana”, dizemos, quando o agressivo Harry pega seu tambor das mãoes de Jack; quando a bebê Marjorie, que ainda não tem nem dois anos, grita pela boneca de Susie.

As coisas acontecem exatamente assim e, por essa mesma razão, isso deveria ser tratado desde cedo. Até mesmo Marjorie deveria ser ensinada a agir melhor. “Eu sempre termino de ensinar a obediência aos meus filhos antes que completem um ano de idade”, disse uma sábia  mãe [Susanna Wesley]; e qualquer um que conheça a natureza das crianças e as possibilidades abertas ao educador dirão: por que não?

Ensine a obediência no primeiro ano, e todas as virtudes da boa vida virão ao longo dos demais; todos os anos com seu próprio trabalho definido em relação ao treinamento de caráter. Edward é um filho egoísta quando chega ao seu quinto aniversário? O fato é anotado no caderno anual de seus pais, juntamente com a resolução de que, em seu sexto aniversário, ele será, pela graça de Deus, uma criança generosa. Mas, nessa hora, o leitor que não percebeu que exercitar a disciplina é uma das principais funções da paternidade, sorri e fala sobre a “natureza humana” com todo o ar de um argumento incontestável.

Eis aí apenas uma das inúmeras ponderações que Charlotte faz sobre a natureza da criança (Rousseau afirma que as crianças nascem boas, enquanto Charlotte reconhece a inclinação natural da criança para o mal) e também sobre importância fundamental da autoridade dos pais na vida da criança (como vemos em seu terceiro princípio, que permeia todos os aspectos da vida da criança: “Os princípios da autoridade, por um lado, e da obediência, por outro, são naturais, necessários e fundamentais”). Vemos, portanto, que Charlotte é completamente defensora da atuação dos pais na educação dos filhos, a fim de que cresçam e se desenvolvam no caminho correto.

Charlotte realmente propõe liberdade para os nossos filhos, mas essa liberdade é, portanto, limitada por nossa autoridade. Quando fala de educação formal, por exemplo, ela enfatiza que as crianças devem receber um banquete de ideias e devem ser deixadas livres para se alimentarem do que estiver à mesa, na proporção que lhes seja apropriada para o momento. Contudo, é preciso notar que quem escolhe o cardápio para o banquete são os pais, e jamais as próprias crianças. As crianças não são livres para escolher o que quiserem entre um universo de opções; elas são livres para escolher o que quiserem dentro daquilo que os pais selecionaram e autorizaram.

“A criança é livre para fazer o que deve, mas sabe muito bem no fundo de seu coração que não está livre para fazer aquilo que não deve. A criança que, ao contrário, cresce sem um forte senso de autoridade por trás de todas as suas ações, mas, ao invés disso recebe frequentes exortações para ser boa e obediente, está ciente de que pode escolher o bem ou o mal, que pode obedecer ou desobedecer, que pode falar a verdade ou mentir; e, mesmo quando ela escolhe o certo, ela o faz à custa de uma grande quantidade de desgaste nervoso e de lágrimas. Seus pais retiraram dela o apoio de sua autoridade na difícil escolha de fazer o certo, e ela foi deixada sozinha para fazer o maior esforço possível: o esforço de decisão.”

Portanto, podemos concluir que os ensinos de Charlotte também fazem oposição ao Construtivismo. Ao afirmarmos que pelo método de Charlotte “as crianças ganham a habilidade de educar a si mesmas” nós não estamos dizendo que elas vão construir seu próprio conhecimento a partir de si mesmas, mas, que ao terem acesso aos melhores livros (selecionados por nós), elas vão crescer e se desenvolver ensinadas diretamente pelos autores dos livros, tendo eles como professores, e não precisando de nossa mediação entre elas e os livros. Nossa autoridade nunca sai de cena, pois somos nós quem decidimos o que a criança vai ler, contudo, nós não ditamos o que a criança deve aprender da leitura: as “relações” que a criança formará são particulares e fazem parte de seu contato pessoal com as ideias vivas, portanto, de sua auto-educação.

Mas, e sobre a ênfase que Charlotte dá em relação ao contato com a Natureza e à liberdade que devemos dar as crianças para aprender na natureza?

Para Charlotte, a Natureza é um grande livro vivo que deve ser lido e desfrutado pelas crianças. Nesse caso, ela insiste que a mãe não deve ficar mediando demais o contato da criança com a Natureza, mas deixar que a natureza fale por si mesma com a criança. Isso não significa, contudo, que ela vai pra natureza livre de qualquer regra. A criança deve ser encorajada a estar em contato com a natureza de acordo com o que Charlotte chama de Inatividade Controlada (a mãe que possui autoridade sobre seus filhos não fica dizendo “faça isso, não faça aquilo”, mas suas regras estão o tempo todo implícitas no ambiente e devem ser seguidas pelas crianças). Uma das únicas permissões que Charlotte faz no sentido de que a mãe deve agir como intermediária entre a natureza e a criança trata-se de elevar o pensamento da criança ao Criador, apontar a grandiosidade de Deus por meio de Suas obras.

“Em primeiro lugar, não os mande; se houver qualquer possibilidade, leve-os; pois, embora as crianças devam ser essencialmente deixadas à vontade, há muito a ser feito e muito a ser evitado durante estas longas horas ao ar livre.”

“Elas devem ser deixadas em paz, deixadas a si mesmas por algum tempo, para assimilarem o que puderem da beleza da terra e do céu; pois dos males da educação moderna, poucos são piores do que este: o constante falatório de seus responsáveis não deixa à pobre criança um momento de tempo, nem um centímetro de espaço sequer, para que ela possa se admirar de algo — e crescer. Ao mesmo tempo, aqui está, para a mãe, a oportunidade de treinar a visão e a audição da criança e plantar sementes de veracidade em sua alma aberta, as quais deverão germinar, florescer e dar frutos, sem sua ajuda ou conhecimento posteriores.”

“Agora, considere que desperdício culposo de energia intelectual seria calar uma criança – abençoada com essa capacidade desordenada de ver e conhecer – dentro das quatro paredes de uma casa ou das ruas sombrias de uma cidade. Ou, suponha que ela seja deixada solta no campo, onde há muito o que ver – seria quase tão ruim deixar essa grande faculdade da criança se dissipar em observações aleatórias por falta de método e direção.”

Um abraço!

Arielle

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