“A Natureza Boa e Má de Uma Criança” por Charlotte Mason

Nota de Publicação: visto que Charlotte era Anglicana, seu segundo ponto diverge da doutrina Calvinista. Entretanto, acreditamos que esta divergência não impede que as famílias de confissão calvinista utilizem a filosofia de Charlotte e sigam seu método de Educação, tendo em vista que, apesar de não crerem que as crianças possuam em si mesmas capacidade para o bem, crerem que o Espírito Santo opera a Seu tempo a regeneração no coração delas enquanto membros da Aliança seladas pelo batismo e criadas na fé, capacitando-as para todo o bem.

A Natureza Boa e Má de Uma Criança (capítulo 3, volume 6)

Crianças não nascem más, mas com possibilidades para o bem e para o mal

Bem-estar do Corpo

Um educador bem conhecido trouxe acusações pesadas contra todos nós pelo fato de que educamos as crianças como “filhos da ira”. Ele provavelmente exagera o efeito de qualquer ensinamento como este, e não percebe que a teoria do “pequeno anjo” é, de igual forma, totalmente prejudicial. O fato parece ser que as crianças são como nós adultos, não porque se tornaram assim, mas porque nasceram assim; isto é, com tendências, disposições, para o bem e para o mal, e também com um curioso conhecimento intuitivo sobre o que é bom e o que é mal. Aqui temos o trabalho da educação indicado. Há tendências boas e más no corpo e mente, coração e alma; e diante de nós reside a esperança de que podemos promover o bem a fim de atenuar o mal; isto é, sobre a condição de colocarmos a Educação em seu verdadeiro lugar como  serva da Religião. A comunidade, a nação, a raça, agora estão assumindo o devido lugar em nosso pensamento religioso. Não estamos mais ocupados apenas com o que uma mulher irlandesa chamou de “salvar sua alma suja”. Nossa religião está se tornando mais magnânima e mais responsável e é hora de que uma mudança semelhante ocorra em nosso pensamento educacional.

Nós nos encontramos em lugares abertos respirando ar fresco quando consideramos, não a educação de uma só criança ou de apenas uma classe social ou mesmo de um determinado país, mas da raça, da natureza humana comum a todas as classes e países, a todos as crianças. A perspectiva é empolgante e o reconhecimento das potencialidades de qualquer criança deve provocar um renascimento educacional que possa fazer com que nosso velho mundo cansado se regozije.

Médicos e fisiologistas nos dizem que as crianças recém-nascidas começam sãs. Uma criança não nasce com tuberculose, por exemplo, mas com uma tendência que é nossa tarefa neutralizar. Do mesmo modo, todas as possibilidades para o bem estão contidas em sua aparelhagem moral e intelectual, o que pode ser dificultado por uma tendência correspondente ao mal para cada potencialidade. Nós começamos a ver o caminho. É nossa função conhecer de que partes e paixões uma criança é feita, discernir os perigos que se apresentam, e ainda mais as possibilidades de liberdade em caminhos deliciosos. Por mais decepcionantes, até mesmo proibidas, que sejam as falhas de uma criança, podemos ter certeza de que, em todos os casos, a tendência oposta está lá e devemos ser inteligentes para trazê-la à tona.

Os pais possuem esse tipo de bom senso mais comumente do que nós de fora, professores e afins. É claro que conhecemos mães e pais que não podem fazer mais nada por Tom e esperam que o professor dê um jeito. Mas com que frequência, por outro lado, ficamos surpresos ao ver o quanto Bob e Polly se comportam melhor em suas próprias casas do que na escola! Talvez seja porque os pais conhecem seus filhos melhor do que os outros e, por essa razão, acreditam mais neles; pois a nossa fé no divino e no humano acompanha o nosso conhecimento. Por essa razão, cabe a nós professores ter uma visão geral da natureza humana presente em todas as crianças. Todo mundo sabe que a fome, sede, repouso, castidade são aquelas funções naturais do corpo por meio das quais ele cresce e funciona; mas em toda criança há tendências à ganância, inquietação, preguiça, impureza, qualquer uma das quais, se permitidas, podem arruinar a criança e o adulto que se tornará.

Além disso, nossos velhos amigos, os cinco sentidos, exigem direção e treinamento. O olfato, especialmente, pode ser uma fonte de delicado prazer pelo hábito de discriminar os bons cheiros de campo e jardim, flor e fruto por si mesmos, não servindo aos gostos da criança, que quando indevidamente mimados, acabam por sujeitar o homem. Mas há pouca novidade a ser aprendida sobre o corpo e seus sentidos. A educação já faz sua parte no treinamento dos músculos, cultivando os sentidos, ordenando os nervos, de todas as crianças, ricas e pobres; porque nestes dias percebemos que o desenvolvimento que é devido a uma criança é devido a todas. Se cometemos algum erro em relação à educação física, talvez seja na questão de ordenar os nervos de uma criança. Nós não consideramos o suficiente para que a nutrição, o descanso, o ar fresco e o exercício natural, adequados ao corpo como um todo, atendam às exigências do sistema nervoso e que a tensão nervosa indevida que uma criança sofre ao carregar uma xícara de chá, ou que um menino ou menina mais velhos experimentam estudando para uma prova pode ser a causa de um colapso nervoso angustiante mais tarde. Estamos nos tornando uma nação nervosa e sobrecarregada e, embora o golfe e o críquete possam fazer alguma coisa por nós, uma educação atenta, alerta para conter todos os sintomas da sobrecarga nervosa, faria muito para garantir a cada criança um corpo saudável e uma mente resistente.

Uma armadilha que ocorre com o professor realmente brilhante é o efeito exaustivo de uma personalidade muito intensa sobre as crianças. Elas são pequenas almas tão ardentes e receptivas que o professor que lhes dá acenos e sinais e sorrisos adornados pode atraí-las como o flautista.

O professor deve tomar cuidado. A atuação indevida da personalidade do professor provavelmente suprime e subjuga a de seus alunos; e, não apenas isso, as crianças estão tão ansiosas por corresponder às expectativas que podem ser levadas a um estado de contínua pressão excessiva sob a influência de uma “personalidade encantadora”.

Esse tipo de sujeição, o Schwarmerei dos alemães, foi vigorosamente apresentado em um romance recente em que uma amante sem princípios e fascinante “moldava” sua personalidade com resultados desastrosos. Mas o perigo não está em casos extremos. A menina que ama tanto a professora que beija sua porta esquecerá dela um dia; mas o hábito parasitário terá sido formado e ela terá sempre alguma pessoa ou alguma causa a que se sujeitar. Eu falo apenas no feminino, talvez injustamente, porque desde a Grécia Antiga os jovens ficavam em volta de seus mestres nas caminhadas da Academia, e havia professores que minaram a estabilidade dos rapazes aos quais se dedicavam. Será que os compatriotas de Sócrates estavam totalmente errados sobre ele? Uma tendência a esse modo de traição é a enfermidade de mentes nobres, daqueles que têm mais a oferecer; e por essa razão, novamente, é importante que tenhamos diante de nós uma visão ampla, digamos assim, da natureza humana.

 

Traduzido por Paula

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