20 Princípios, Filosofia de Educação

A Natureza Boa e Má da Criança

por Charlotte Mason

Volume 06

Afetos mal direcionados

Estamos cientes de que há mais do que  mente e corpo em nossas relações com as crianças. Nós apelamos para seus ‘sentimentos’; onde ‘mente’ ou ‘sentimentos’ são nomes que escolhemos dar a manifestações daquela entidade espiritual que é cada um de nós. Provavelmente não nos damos ao trabalho de analisar e nomear os sentimentos e descobrir que todos eles se enquadram nos nomes do AMOR e da JUSTIÇA, e que é a glória do ser humano ser dotado de uma grande quantidade desses dois, suficiente para todas as ocasiões da vida. E mais, as ocasiões vêm e o ser humano está pronto para encontrá-los com facilidade e triunfo.

Mas essa rica dotação da natureza moral é também uma questão com a qual o educador deve se preocupar. Ai! Ele se preocupa. Ele aponta a moral com mil chavões tediosos, dirige, instrui, ilustra e aborrece excessivamente as mentes ágeis e sutis de seus alunos. Este, dos sentimentos e suas manifestações, é certamente o campo para elogios e censuras pelos pais e professores; mas este elogio ou censura pode ou ser descartado pelas crianças, ou tomado como único motivo de conduta, elas seguem desacostumadas ​​a fazer uma coisa “por ser o certo”, mas apenas para ganhar a aprovação de alguém.

Essa educação dos sentimentos, a educação moral, é muito delicada e pessoal para um professor confiar em seus próprios recursos. As crianças não devem ser alimentadas moralmente como jovens pombos com comida pré-digerida. Eles devem escolher e comer por si mesmas e elas o fazem ouvindo e percebendo a conduta de outras pessoas. Mas eles querem uma grande quantidade desse tipo de alimento cujo assunto é a conduta, e é por isso que a poesia, a história, o romance, a geografia, as viagens, as biografias, a ciência e os cálculos devem ser todos postos em serviço. Ninguém pode dizer qual pedaço particular uma criança escolherá para seu sustento. Um menino de oito anos pode chegar atrasado porque “Eu estava meditando sobre Platão e não podia fechar os meus botões”, e outro pode encontrar seu alimento em “Peter Pan”! Mas todas as crianças devem ler muito e saber o que leram para nutrir sua complexa natureza.

Quanto às lições morais, elas são piores do que inúteis; O que as crianças querem é uma boa e diversa alimentação moral, da qual tiram as “lições” de que necessitam. É uma coisa maravilhosa que toda criança, mesmo a mais rude, seja dotada de amor e seja capaz de todas as suas manifestações como bondade, benevolência, generosidade, gratidão, compaixão, simpatia, lealdade, humildade, alegria; nós, pessoas mais velhas, ficamos espantados com a exibição luxuosa de qualquer uma dessas manifestações apresentadas pela criança mais ignorante. Mas essas aptidões são tão cunhadas do reino com o qual uma criança é provida que ela pode ser capaz de ter uma vida virtuosa sem lições morais sistemáticas; e, ai!, estamos cientes de certas tendências vulgares comuns em nós mesmos que nos fazem andar com delicadeza e confiança, não ao nosso próprio ensino, mas ao melhor que temos na arte e literatura e acima de tudo para aquele depósito de exemplo e preceito, a Bíblia, para nos capacitar a tocar esses delicados espíritos em assuntos elevados.

São Francisco, Collingwood [William Gershom? ou Lorde Cuthbert?], o padre Damien, um dos veteranos de guerra entre nós, farão mais pelas crianças do que anos de conversa.

Então há aquela outra provisão maravilhosa para uma vida correta presente mesmo em uma alma humana negligenciada ou selvagem. Todos tem justiça em seu coração; um grito de “fair play” atinge a plebe mais sem lei, e todos nós sabemos como as crianças nos atormentam com  seu “não é justo”. É muito importante saber que, em matéria de justiça e de amor, existe em todos uma provisão adequada para a condução da vida: a inquietação geral, que tem sua origem em pensamentos errados e julgamentos errados muito mais do que em condições deficientes, é o resultado equivocado desse senso de justiça com o qual, graças a Deus, todos somos dotados.

Aqui, à primeira vista, temos uma função da educação. A justiça é outra provisão espiritual que falhamos em empregar devidamente em nossas escolas; e tão maravilhoso é este princípio que não podemos matar, paralisar, ou até mesmo entorpecê-lo, mas, sufocado em seu curso natural, ele espalha confusão e devastação onde deveria ter feito o solo fértil para os frutos de uma boa vida.

Poucas funções da educação são mais importantes do que de preparar os homens para distinguir entre os seus direitos e os seus deveres. Cada um de nós temos direitos e outras pessoas têm seus deveres para conosco como nós também temos em relação a elas; mas não é fácil aprender que temos precisamente os mesmos direitos que as outras pessoas e não mais; que outras pessoas nos devem apenas os deveres que devemos a elas. Esta bela arte de auto-ajustamento é possível a todos por causa do princípio inerradicável que habita em nós. Mas nossos olhos devem ser ensinados a ver e, consequentemente, a necessidade de todos os processos de educação, fúteis na proporção em que não servem a esse fim. Pensar de forma justa requer, como sabemos, conhecimento e consideração.

Os jovens devem deixar a escola sabendo que seus pensamentos não são deles; Que o que pensamos de outras pessoas é uma questão de justiça ou injustiça; que uma certa delicadeza de palavras é devida a todos os tipos de pessoas com quem eles têm que lidar; e que não falar essas palavras é ser injusto com seus vizinhos. Eles devem saber que a verdade, isto é, a justiça em palavra, é sua responsabilidade, assim como de todas as outras pessoas; há poucas ferramentas melhores para um cidadão do que uma mente capaz de discernir a verdade, e essa mente justa só pode ser preservada por aqueles que ficam atentos ao que pensam.

“No entanto, a verdade”, diz Bacon, “que apenas julga a si mesma, ensina que a investigação da verdade, que é o amor, ou a conquista dele, o conhecimento da verdade, que é a presença dela, e a crença da verdade, que é o deleite dela, é o bem soberano da natureza humana.”

Se a justiça nas palavras deve ser devidamente aprendida por todos os estudiosos, mais ainda deve ser a integridade, a justiça nas ações; integridade no trabalho, que desaprova métodos abusivos, seja aqueles do artesão que faz o mínimo possível no tempo, seja do estudante que recebe pagamento do tipo – o apoio, o custo de sua educação e a confiança imposta a ele pelos pais e professores. Portanto, ele não pode fazer as coisas de qualquer jeito, postergar, reclamar ou, de alguma outra forma, fugir de seu trabalho. Ele descobre que “meu dever para com meu vizinho” é “impedir que minhas mãos furtem e roubem”, e, quer um homem seja um trabalhador, um servo ou um cidadão próspero, ele deve saber que a justiça exige dele a integridade material que chamamos de honestidade; não a honestidade comum que detesta ser descoberta, mas aquele senso de valores refinado e delicado  que George Eliot exibe para nós em ‘Caleb Garth’.

Há outra forma em que o cidadão magnânimo do futuro deve aprender o senso de justiça. Nossas opiniões mostram nossa integridade de pensamento. Cada pessoa tem muitas opiniões, sejam por ela mesmo honestamente pensadas, sejam noções colhidas em seu jornal de estimação ou em seus companheiros. A pessoa que pensa suas opiniões modesta e cuidadosamente está cumprindo seu dever como se salvasse uma vida porque não há mais ou menos sobre esse dever.

Se um estudante deve ser guiado à justiça de pensamento do qual sólidas opiniões emanam, quanto mais ele precisa de orientação para chegar à justiça nos motivos, que nós chamamos de princípios. Pois afinal, o que são os princípios senão motivos de primeira importância que nos governam, movem nossos pensamentos e ações? Parece que escolhemos esses de uma maneira casual e raramente somos capazes de prestar contas deles e, ainda assim, nossas vidas são ordenadas por nossos princípios, bons ou ruins. Aqui, novamente, temos uma razão para uma leitura ampla e sabiamente ordenada; porque há sempre clichês flutuando no ar, como: “O que é o bem?” “É tudo podridão”, e coisas do tipo, que a mente vazia toma como base de pensamento e conduta, que são de fato, princípios insignificantes para a orientação de uma vida.

Aqui temos mais uma razão pela qual não há nada no estoque de tesouros espirituais do mundo bom demais para a educação de todas as crianças. Toda conto adorável, poema iluminador, história instrutiva, toda experiência de viagem e revelação da ciência existem para as crianças. “La terre appartient à lnfant, toujours à l’enfant,” [O chão pertence à criança, sempre com a criança] foi bem dito por Maxim Gorky, e devemos nos lembrar bem do fato.

O serviço que alguns de nós (da P.N.E.U) acreditamos ter feito  pela educação foi descobrir que todas as crianças, mesmo as crianças atrasadas, estão cientes de suas necessidades e pateticamente ansiosas pela comida que necessitam; que nenhuma preparação é necessária para esse tipo de dieta; que um vocabulário limitado, um ambiente sórdido, a ausência de uma base literária para o pensamento não são obstáculos; na verdade, eles podem se transformar em incentivos ao aprendizado, assim como quanto mais faminta a criança, mais pronta ela está para o jantar. Esta afirmação não é mera opinião; já foi amplamente provada em milhares de instâncias. Crianças de escolas pobres nas favelas estão ansiosas para contar toda a história da Waverly, usando continuamente da bela linguagem e estilo do autor. Eles falam sobre a Pedra de Roseta e sobre tesouros em seu museu local; eles discutem Coriolanus e concluem que “sua mãe deve tê-lo mimado”. Eles sabem de cor cada detalhe de uma pintura de La Hooch, Rembrandt, Botticelli, e não apenas não há evolução da história ou do drama, nem doçura sutil, nem inspiração de um poeta fora do alcance deles, mas eles se recusam a saber o que não os alcança em forma literária.

O que eles recebem sob esta condição eles absorvem imediatamente e mostram que sabem por aquele teste de conhecimento que se aplica a todos nós, isto é, eles podem dizer isto com poder, clareza, vivacidade e encanto. Estas são as crianças a quem temos distribuído os ‘três R’s’ por gerações! Não é de admirar que a delinquencia juvenil aumente; o rapaz intelectualmente faminto precisa encontrar alimento para sua imaginação, espaço para seu poder intelectual; e o crime, como o cinema, oferece, temos que admitir, bravas aventuras.

Traduzido por Paula Lima e Gabriely Cruvinel.

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