20 Princípios, Filosofia de Educação

O Hábito da Obediência

por Charlotte Mason

Volume 01

É decepcionante que, a fim de cobrir o terreno completo, devemos tratar destes hábitos morais, dos quais o cultivo a mãe deve a seus filhos, de maneira tão breve e inadequada;
mas devemos levar em conta que tudo o que já foi dito sobre o cultivo do hábito se aplica com a maior força possível a cada um desses hábitos.

1. O Dever Pleno de Uma Criança

O primeiro e infinitamente mais importante, é o hábito da obediência. De fato, a obediência é o dever pleno da criança e, por essa razão, todos os outros seus deveres são cumpridos como uma questão de obediência a seus pais. Não só isso: a obediência é o dever pleno do homem; obediência à consciência, à lei, à direção divina.
Alguém já observou muito bem que cada uma das três tentações registradas de nosso Senhor no deserto é uma sugestão para se praticar, não um ato de pecado declarado, mas um ato de obstinação: aquele estado diretamente oposto à obediência, e do qual brota todo tipo de insensatez ligada ao coração de uma criança.

2. Obediência Não é um Dever Involuntário

Contudo, se os pais perceberem que a obediência não é um mero dever involuntário, cujo cumprimento é um problema que se situa entre eles e a criança, mas que eles são os agentes designados para treinar a criança até que desenvolva a obediência inteligente de um ser humano que se obriga a cumprir a lei, eles verão que não têm o direito de renunciar à obediência de seu filho, e que cada ato de desobediência na criança é uma condenação direta dos pais. Além disso, eles verão que o motivo da obediência da criança não é aquele motivo arbitrário de “Faça isto ou aquilo, porque eu mandei”, mas o da injunção apostólica: “Filhos, obedeçam a seus pais no Senhor. porque isso é certo”.

3. As Crianças Devem Ter o Desejo de Obedecer

É somente na proporção em que a vontade da criança está presente no ato da obediência, e ela obedece porque seu senso de justiça faz com que ela deseje obedecer, apesar das tentações à desobediência – não por constrangimento, mas de boa vontade – que o hábito será formado. E este hábito irá, a partir de então, capacitar a criança a usar a força de sua vontade contra suas inclinações, quando estas a instigarem a um procedimento ilegal.
Afirma-se que filhos de pais rigorosos demais em exigir uma obediência minuciosa muitas vezes acabam doentes; e que órfãos e outras pobres crianças colocadas sob rígida disciplina aguardam apenas uma oportunidade de transgredir a ordem. E é exatamente assim; porque, nesses casos, não há treinamento gradual da criança no hábito da obediência; nenhum engajamento gradual de sua vontade com o doce serviço, nem uma oferta voluntária de submissão à mais alta lei: as pobres crianças são simplesmente coagidas a se submeterem à vontade, isto é, à obstinação de outro; de modo algum “porque isto é certo”, mas apenas porque é conveniente.

4. Espere a Obediência

A mãe não tem dever mais sagrado do que treinar seu filho a obedecer imediatamente. Fazer isso não é uma tarefa difícil; a criança ainda está “percorrendo nuvens de glória…de Deus, com quem habita”; o princípio da obediência está dentro dela, esperando para ser exercitado. Não há necessidade de repreender severamente a criança, ameaçá-la ou usar qualquer tipo de violência, porque os pais estão investidos da autoridade que a criança intuitivamente reconhece. Basta dizer: “Faça isso”, num tom calmo e autoritativo, e esperar que aquilo seja feito. A mãe freqüentemente perde o controle dos filhos quando eles detectam, pelo tom de sua voz, que ela não espera que eles a obedeçam; ela não estima sua posição; não tem confiança suficiente em sua própria autoridade. A grande fortaleza da mãe está no hábito da obediência. Se ela exige, desde o princípio, que seus filhos sempre a obedeçam, então, eles sempre o farão como algo natural; mas uma vez que dêem o primeiro passo rumo ao mau caminho, que descubram que podem desobedecer, uma luta lamentável começará, e essa luta normalmente termina com as crianças fazendo o que é certo aos seus próprios olhos.
Esse tipo de coisa é fatal: as crianças estão na sala de visitas e alguém toca a campainha. ‘Vocês devem subir para o quarto, agora.’ ‘Oh querida mamãe, deixe-nos ficar no canto perto da janela; nós ficaremos em silêncio!” A mãe fica bastante orgulhosa das boas maneiras de seus filhos, e eles permanecem. Eles não ficam em silêncio, é claro; mas esse é o menor dos males; eles conseguiram fazer o que escolheram e não o que lhes foi ordenado, e eles não colocarão seus pescoços sob o jugo novamente sem lutar. É em pequenas situações que a mãe é prejudicada. “Hora de dormir, Willie!” ‘Oh, mamãe, deixe-me apenas terminar isso’; e a mãe cede, desconsiderando que o caso em questão não é irrelevante; pois importa que a criança esteja diariamente confirmando o hábito da obediência pela repetição ininterrupta de atos de obediência. É espantoso como a criança é hábil em encontrar maneiras de fugir do espírito enquanto observa a letra. “Mary, entre”. ‘Sim mãe’; mas sua mãe chama quatro vezes antes que Mary entre. ‘Guarde seus blocos; e os blocos são guardados por dedos lentos e relutantes. “Você sempre deve lavar as mãos quando ouvir a primeira campainha”. A criança obedece daquela vez e nunca mais.
Para evitar essas demonstrações de obstinação, a mãe deve insistir desde o início em uma obediência imediata, alegre e perene – exceto por lapsos de memória por parte da criança. A obediência ocasional, relutante e indisposta dificilmente vale à pena; e é muito mais fácil formar na criança o hábito da obediência perfeita, ao nunca lhe permitir qualquer outra atitude, do que obter essa obediência meramente formal por um exercício constante de autoridade.
Aos poucos, quando a criança tiver idade suficiente, leve-a à confiança; mostre-a como é nobre ser capaz de fazer, em um minuto e de forma brilhante, algo que ela não gostaria de fazer. Para assegurar este hábito da obediência, a mãe deve exercer grande autocontrole; ela nunca deve dar uma ordem que não pretende ver totalmente executada. E ela não deve colocar sobre seus filhos fardos difíceis de suportar: uma ordem atrás da outra.

5. A Lei Assegura a Liberdade

As crianças que são treinadas a obedecer perfeitamente podem ser confiadas a uma grande dose de liberdade: elas recebem algumas instruções que sabem que não devem desobedecer; e em relação às demais coisas, têm permissão para aprender como dirigir
suas próprias ações, mesmo à custa de alguns pequenos contratempos; e não precisam ser importunadas com um disparar contínuo de “Faça isto” e “Não faça aquilo!”

 

Traduzido por Arielle Pedrosa

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