Verdadeiro Conhecimento Requer Relacionamento

por Charlotte Mason

 

Uma criança deve ser educada para ter fortes relações com a terra e a água, deve correr e cavalgar, nadar e patinar, levantar e carregar; deve conhecer as texturas e fazer trabalhos manuais; deve saber o nome das coisas vivas do mundo ao seu redor, e onde e como eles vivem, sejam seus pássaros, feras,  seres rastejantes ou ervas e árvores; deve estar em contato com a literatura, a arte e o pensamento do passado e do presente. Ela deve ter uma relação viva com o presente, seu movimento histórico, sua ciência, literatura, arte, necessidades e aspirações sociais. De fato, ela deve ter uma visão ampla, relações íntimas por toda parte; e deve emanar força e virtude, por meio de suas mãos, vontade ou compaixão, onde quer que toque. Este não é um programa impossível. De fato, pode estar perfeitamente cumprido quando um menino ou menina inteligente atingir a idade de treze ou quatorze anos; pois depende não do quanto é aprendido, mas de como as coisas são aprendidas.

Dê às crianças uma ampla gama de assuntos, com o fim de estabelecer em cada caso uma ou mais das relações que indiquei. Deixe-as aprender com fontes de informação em primeira mão – livros realmente bons, os melhores, de fato, sobre o assunto em que estão empenhados. O professor deve fazer com que as crianças cheguem aos livros si mesmas, e não despejar sobre elas um conteúdo diluído. A função do professor é indicar, estimular, direcionar e restringir a aquisição de conhecimento, mas de modo algum ser a fonte e a origem de todo conhecimento em sua própria pessoa. Quanto menos os pais e professores triturarem o conhecimento ao transmiti-lo para as crianças que estão educando, melhor. Para um estômago saudável, alimentos pré-digeridos dos não contribuem com uma nutrição vigorosa. As crianças devem ter permissão para ruminar, devem ser deixadas sozinhas com seus próprios pensamentos. Elas pedirão ajuda se quiserem.

Tentemos, ainda que de forma imperfeita, tornar a educação uma ciência das relações – em outras palavras, tentar, em um assunto ou outro, deixar que as crianças trabalhem com as ideias vivas. Neste campo, pequenos esforços serão honrados com grandes recompensas, e percebemos que a educação que estamos dando excede tudo o que pretendíamos ou imaginávamos.

 

 

“Educação é Uma Atmosfera”

Esse princípio é fundamental na filosofia de Charlotte, permeando tudo o que ela diz. Portanto, é de se esperar que não posso esgotar o assunto em um pequeno post. Mas, quero aqui abordar um ponto de forma simplificada: o ambiente físico da criança.

Mas, retornemos ao berçário. Seria ótimo se a cuidadora fosse impressionada com a noção de que o bebê é sempre presente, e que ele não apenas vê e sabe tudo, mas preservará, por toda a sua vida, a marca de tudo o que vê.”

Em seu primeiro livro, Charlotte afirma, dentre outras coisas, que o ambiente interno da casa deve receber ventilação adequada:

“Portanto, deve-se providenciar uma ventilação regular dos cômodos da casa independentemente das sensações dos seus habitantes, visto que se pelo menos dois centímetros e meio da janela permanecerem abertos dia e noite, isso tornará um cômodo suficientemente seguro, porque permitirá a evasão do ar viciado que, sendo leve, sobe, deixando espaço para o afluxo de ar mais frio e mais fresco através de fendas e das brechas nas portas e pisos. Uma chaminé aberta é um ventilador útil, embora não seja o suficiente. É desnecessário dizer que tapar as chaminés nos dormitórios é uma atitude suicida. É particularmente importante acostumar as crianças a dormir com alguns centímetros ou mais de janela aberta durante todo o ano — tanto mais do que você gosta durante o verão.”

Afirma que o quarto das crianças deve receber a luz solar:

“Portanto, conclui-se que a luz e o sol são favoráveis ​​à produção de glóbulos vermelhos no sangue, e, portanto — este “portanto” é apenas uma aplicação para as mães —, os quartos das crianças devem estar no lado ensolarado da casa, com uma vertente meridional, se possível. Na verdade, toda a casa deveria ser mantida iluminada e brilhante por causa delas. Árvores e dependências que obstruem o sol e tornam os quartos das crianças escuros deveriam ser removidas.”

Afirma que as crianças devem ter a pele livre para transpirar:

“Seguem-se duas considerações: sobre a primeira, a necessidade de banho diário seguido de fricção vigorosa da pele, é desnecessário acrescentar palavra aqui. Mas, possivelmente, não é tão bem entendido que as crianças devem se vestir de roupas porosas que permitam a passagem instantânea das expirações da pele.”

Afirma que seus quartos devem ser mantidos limpos:

As mães dão banho em seus bebês e lavam incessantemente suas roupas; entretanto, escrupulosas como são as mães da classe culta, delegam muitas tarefas às cuidadoras, e é preciso bastante vigilância para assegurar que não haja o menor odor sobre a criança ou sobre qualquer coisa que lhe pertença, e que os berçários sejam mantidos agradáveis e completamente arejados.”

Afirma que os objetos colocados em contato com a criança devem ser bem cuidados:

“A mesa do berçário, se houver, deve ser mantida tão escrupulosamente bela quanto a da sala de jantar. A criança que se senta a uma mesa que tem uma toalha amarrotada ou manchada, ou usa uma colher de metal descolorida, está sendo corrompida.”

O que foi dito sobre a higiene aplica-se muito mais à ordem: deve haver ordem e hábitos ordeiros no berçário. Em primeiro lugar, o berçário não deve ser considerado um hospital para os móveis inutilizados ou desgastados da casa; copos rachados, pratos quebrados, jarros e bules com bicos despedaçados, devem ser banidos.”

E tudo isso porque a criança guarda memórias importantes de sua infância e deve ser criada em uma atmosfera que considera o “espaço” algo precioso, do qual somos mordomos para Deus, algo que deve ser bem cuidado, preservado e ordenado, que reflita o caráter de Deus, para que possamos viver uma vida mais agradável, bela e harmoniosa, bem como não sermos impedidos de servir a Deus e ao próximo por questões de estrutura (objetos fora do lugar ou quebrados nos impedem vários trabalhos, a falta de luz solar no ambiente provoca alergias, etc.).

O Hábito da Obediência

por Charlotte Mason

Volume 01

É decepcionante que, a fim de cobrir o terreno completo, devemos tratar destes hábitos morais, dos quais o cultivo a mãe deve a seus filhos, de maneira tão breve e inadequada;
mas devemos levar em conta que tudo o que já foi dito sobre o cultivo do hábito se aplica com a maior força possível a cada um desses hábitos.

1. O Dever Pleno de Uma Criança

O primeiro e infinitamente mais importante, é o hábito da obediência. De fato, a obediência é o dever pleno da criança e, por essa razão, todos os outros seus deveres são cumpridos como uma questão de obediência a seus pais. Não só isso: a obediência é o dever pleno do homem; obediência à consciência, à lei, à direção divina.
Alguém já observou muito bem que cada uma das três tentações registradas de nosso Senhor no deserto é uma sugestão para se praticar, não um ato de pecado declarado, mas um ato de obstinação: aquele estado diretamente oposto à obediência, e do qual brota todo tipo de insensatez ligada ao coração de uma criança.

2. Obediência Não é um Dever Involuntário

Contudo, se os pais perceberem que a obediência não é um mero dever involuntário, cujo cumprimento é um problema que se situa entre eles e a criança, mas que eles são os agentes designados para treinar a criança até que desenvolva a obediência inteligente de um ser humano que se obriga a cumprir a lei, eles verão que não têm o direito de renunciar à obediência de seu filho, e que cada ato de desobediência na criança é uma condenação direta dos pais. Além disso, eles verão que o motivo da obediência da criança não é aquele motivo arbitrário de “Faça isto ou aquilo, porque eu mandei”, mas o da injunção apostólica: “Filhos, obedeçam a seus pais no Senhor. porque isso é certo”.

3. As Crianças Devem Ter o Desejo de Obedecer

É somente na proporção em que a vontade da criança está presente no ato da obediência, e ela obedece porque seu senso de justiça faz com que ela deseje obedecer, apesar das tentações à desobediência – não por constrangimento, mas de boa vontade – que o hábito será formado. E este hábito irá, a partir de então, capacitar a criança a usar a força de sua vontade contra suas inclinações, quando estas a instigarem a um procedimento ilegal.
Afirma-se que filhos de pais rigorosos demais em exigir uma obediência minuciosa muitas vezes acabam doentes; e que órfãos e outras pobres crianças colocadas sob rígida disciplina aguardam apenas uma oportunidade de transgredir a ordem. E é exatamente assim; porque, nesses casos, não há treinamento gradual da criança no hábito da obediência; nenhum engajamento gradual de sua vontade com o doce serviço, nem uma oferta voluntária de submissão à mais alta lei: as pobres crianças são simplesmente coagidas a se submeterem à vontade, isto é, à obstinação de outro; de modo algum “porque isto é certo”, mas apenas porque é conveniente.

4. Espere a Obediência

A mãe não tem dever mais sagrado do que treinar seu filho a obedecer imediatamente. Fazer isso não é uma tarefa difícil; a criança ainda está “percorrendo nuvens de glória…de Deus, com quem habita”; o princípio da obediência está dentro dela, esperando para ser exercitado. Não há necessidade de repreender severamente a criança, ameaçá-la ou usar qualquer tipo de violência, porque os pais estão investidos da autoridade que a criança intuitivamente reconhece. Basta dizer: “Faça isso”, num tom calmo e autoritativo, e esperar que aquilo seja feito. A mãe freqüentemente perde o controle dos filhos quando eles detectam, pelo tom de sua voz, que ela não espera que eles a obedeçam; ela não estima sua posição; não tem confiança suficiente em sua própria autoridade. A grande fortaleza da mãe está no hábito da obediência. Se ela exige, desde o princípio, que seus filhos sempre a obedeçam, então, eles sempre o farão como algo natural; mas uma vez que dêem o primeiro passo rumo ao mau caminho, que descubram que podem desobedecer, uma luta lamentável começará, e essa luta normalmente termina com as crianças fazendo o que é certo aos seus próprios olhos.
Esse tipo de coisa é fatal: as crianças estão na sala de visitas e alguém toca a campainha. ‘Vocês devem subir para o quarto, agora.’ ‘Oh querida mamãe, deixe-nos ficar no canto perto da janela; nós ficaremos em silêncio!” A mãe fica bastante orgulhosa das boas maneiras de seus filhos, e eles permanecem. Eles não ficam em silêncio, é claro; mas esse é o menor dos males; eles conseguiram fazer o que escolheram e não o que lhes foi ordenado, e eles não colocarão seus pescoços sob o jugo novamente sem lutar. É em pequenas situações que a mãe é prejudicada. “Hora de dormir, Willie!” ‘Oh, mamãe, deixe-me apenas terminar isso’; e a mãe cede, desconsiderando que o caso em questão não é irrelevante; pois importa que a criança esteja diariamente confirmando o hábito da obediência pela repetição ininterrupta de atos de obediência. É espantoso como a criança é hábil em encontrar maneiras de fugir do espírito enquanto observa a letra. “Mary, entre”. ‘Sim mãe’; mas sua mãe chama quatro vezes antes que Mary entre. ‘Guarde seus blocos; e os blocos são guardados por dedos lentos e relutantes. “Você sempre deve lavar as mãos quando ouvir a primeira campainha”. A criança obedece daquela vez e nunca mais.
Para evitar essas demonstrações de obstinação, a mãe deve insistir desde o início em uma obediência imediata, alegre e perene – exceto por lapsos de memória por parte da criança. A obediência ocasional, relutante e indisposta dificilmente vale à pena; e é muito mais fácil formar na criança o hábito da obediência perfeita, ao nunca lhe permitir qualquer outra atitude, do que obter essa obediência meramente formal por um exercício constante de autoridade.
Aos poucos, quando a criança tiver idade suficiente, leve-a à confiança; mostre-a como é nobre ser capaz de fazer, em um minuto e de forma brilhante, algo que ela não gostaria de fazer. Para assegurar este hábito da obediência, a mãe deve exercer grande autocontrole; ela nunca deve dar uma ordem que não pretende ver totalmente executada. E ela não deve colocar sobre seus filhos fardos difíceis de suportar: uma ordem atrás da outra.

5. A Lei Assegura a Liberdade

As crianças que são treinadas a obedecer perfeitamente podem ser confiadas a uma grande dose de liberdade: elas recebem algumas instruções que sabem que não devem desobedecer; e em relação às demais coisas, têm permissão para aprender como dirigir
suas próprias ações, mesmo à custa de alguns pequenos contratempos; e não precisam ser importunadas com um disparar contínuo de “Faça isto” e “Não faça aquilo!”

 

Traduzido por Arielle Pedrosa

“A Natureza Boa e Má de Uma Criança” por Charlotte Mason

Nota de Publicação: visto que Charlotte era Anglicana, seu segundo ponto diverge da doutrina Calvinista. Entretanto, acreditamos que esta divergência não impede que as famílias de confissão calvinista utilizem a filosofia de Charlotte e sigam seu método de Educação, tendo em vista que, apesar de não crerem que as crianças possuam em si mesmas capacidade para o bem, crerem que o Espírito Santo opera a Seu tempo a regeneração no coração delas enquanto membros da Aliança seladas pelo batismo e criadas na fé, capacitando-as para todo o bem.

A Natureza Boa e Má de Uma Criança (capítulo 3, volume 6)

Crianças não nascem más, mas com possibilidades para o bem e para o mal

Bem-estar do Corpo

Um educador bem conhecido trouxe acusações pesadas contra todos nós pelo fato de que educamos as crianças como “filhos da ira”. Ele provavelmente exagera o efeito de qualquer ensinamento como este, e não percebe que a teoria do “pequeno anjo” é, de igual forma, totalmente prejudicial. O fato parece ser que as crianças são como nós adultos, não porque se tornaram assim, mas porque nasceram assim; isto é, com tendências, disposições, para o bem e para o mal, e também com um curioso conhecimento intuitivo sobre o que é bom e o que é mal. Aqui temos o trabalho da educação indicado. Há tendências boas e más no corpo e mente, coração e alma; e diante de nós reside a esperança de que podemos promover o bem a fim de atenuar o mal; isto é, sobre a condição de colocarmos a Educação em seu verdadeiro lugar como  serva da Religião. A comunidade, a nação, a raça, agora estão assumindo o devido lugar em nosso pensamento religioso. Não estamos mais ocupados apenas com o que uma mulher irlandesa chamou de “salvar sua alma suja”. Nossa religião está se tornando mais magnânima e mais responsável e é hora de que uma mudança semelhante ocorra em nosso pensamento educacional.

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“Primeiro Princípio de Charlotte Mason” Por Art Middlekauff

“A ‘Criança é uma pessoa’ será o ponto crucial da nossa Cruzada” (Mason, 1904, p. 10)

O primeiro princípio do resumo de vinte pontos feito por Charlotte Mason é simplesmente:

As crianças nascem pessoas. (Mason, 1989f, p. xxix)

Composto de apenas quatro palavras, é o princípio mais curto deste resumo. Essa economia de palavras tem contribuído para um estado geral de confusão sobre o que Mason quer dizer com essa afirmação. Os intérpretes contemporâneos de Charlotte Mason abordaram esse princípio de várias maneiras.

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Charlotte Mason e PNEU – Grandes Desafios e Grandes Recompensas

Era junho de 1837 quando o então rei da Inglaterra, Guilherme IV, veio a falecer, deixando o trono vazio a ser ocupado por sua sucessora, Alexandrina Vitória, e inaugurando um longo período de paz e progresso para a nação. Mas não só a Inglaterra passaria por um período de expansão: seguiu-se por toda a Europa uma importante disseminação de conteúdo intelectual e científico que se estendeu por todo o século, consolidando nomes que exercem forte influência, para o bem ou para o mal, até hoje em todo o mundo.

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“Educação é uma Disciplina”. E a punição?

disciplinaHábitos. Sabemos que o que “Educação é uma Disciplina” significa. Conhecemos o sétimo princípio de Charlotte, que afirma:

“Por ‘Educação é uma disciplina’, refiro-me à disciplina de hábitos formados definitivamente e conscientemente, quer sejam hábitos da mente ou do corpo. Os fisiologistas nos falam da adaptação da estrutura cerebral às linhas habituais de pensamento – isto é, aos nossos hábitos.”

Mas, muitas dúvidas surgem, então, sobre como corrigir um mau hábito, ou mau comportamento. O que Charlotte tem a dizer sobre isso?

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