“Caligrafia e cópia” por Lizie Carvalho

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Perguntaram-me recentemente como eu trabalho caligrafia com a Ana.

Deixe-me esclarecer, de início, que no método Charlotte Mason a caligrafia não é um fim em si mesmo. Ela está incluída no trabalho de cópia, a transcrição palavra por palavra de uma frase ou trecho, e seu objetivo não é simplesmente ter uma letra bonita.

Então, porque fazer caligrafia e cópia?

Primeiro, para ter uma letra bonita! Não, não estou me contradizendo.

Charlotte Mason nos chama a apreciarmos e nos deleitarmos na beleza da natureza, principalmente, e também na beleza das artes.

“A percepção da beleza em sua própria escrita e nas linhas que copiam deve conduzi-las com deleite a esse momento de trabalho.” v.1, p.238

Fica clara, em suas obras, sua intenção de ensinar a criança a contemplar, apreciar e se deleitar naquilo que é belo. O que é belo e harmonioso nos traz alegria bem como prazer aos nossos olhos e ouvidos.

 “A primeira prática de escrita direcionada a crianças de sete ou oito anos não deve ser escrever cartas ou ditados, mas fazer um trabalho de transcrição lento e bonito” v.1 p.238

Há notável importância dada por CM no que se escreve também. As crianças devem escolher suas passagens favoritas para transcreverem.

 “Pode-se acrescentar a esse exercício um certo senso de posse e deleite, ao permitir-se que as crianças escolham seu verso favorito em um ou outro poema para transcrever. Isso é melhor do que escrever um poema favorito por inteiro, exercício que enfada os pequenos antes que esteja terminado. Mas, um livro de sua própria autoria, composto de seus próprios versos selecionados, deveria agradar-lhes.” V1p239

A segunda razão é que o trabalho de cópia é a maneira como ortografia e gramática são trabalhadas nos anos iniciais pelo método CM.

“A transcrição deveria ser uma introdução à ortografia. As crianças deveriam ser encorajadas a olhar para a palavra, ver sua imagem com os olhos fechados e, depois, escrever de memória.” V1p239

Não há livros didáticos no método CM. Não há uma lista de palavras para que as crianças dividam em sílabas, destaquem a sílaba tônica e acentuem. Regras gramaticais são aprendidas pela leitura e cópia de cada palavra. E sua correta ortografia memorizada.

E como fazê-lo?

Como já citei, a criança deverá escolher os trechos a serem transcritos. Mas há um percurso até o momento em que a criança consegue transcrever uma ou mais frases.

As lições devem ser curtas. Cinco a dez minutos. Devemos iniciar na caligrafia com uma letra apenas. Uma letra por lição, escrita perfeitamente dará a criança algo pelo qual se esforçar sem chegar ao desleixo oriundo do cansaço. Peça à criança que copie perfeitamente por algumas vezes um mesmo traço. Não uma folha inteira, mas uma meia dúzia é suficiente. Há disponível para venda livros e apostilas que trazem esses traços básicos. Depois, faça o mesmo com as outras letras.

Na medida em que a criança for crescendo, procure evita a borracha. Não nos empenhamos em fazer algo que pode ser refeito. Após a criança ter escrito cada letra, traremos duas ou três palavras de um poema ou trecho já conhecido, seguindo, depois, para frases e períodos.

“Primeiro, a criança precisa concluir algo perfeitamente em todas as lições — um traçado reto ou curvo, ou uma letra. A lição de escrita precisa ser curta; não deve durar mais do que cinco ou dez minutos. A facilidade na escrita vem pela prática; mas, isso deverá ser assegurado posteriormente. Até lá, o principal a ser evitado é o hábito do trabalho descuidado.” V.1 p.233-234

Aqui está apontado um dos princípios de uma educação CM: o hábito da execução perfeita.

“A criança não deve receber qualquer trabalho que não possa executar perfeitamente, e, portanto, deve-se exigir dela perfeição como algo natural. Por exemplo, se você a colocar para fazer cópia de traçados e permitir que ela encha uma lousa com todo tipo de inclinações e todo tipo de espaçamentos, seu senso moral será corrompido e sua visão ferida. Dê a ela seis traçados para copiar; permita que ela entregue seis traçados perfeitos, com espaçamentos regulares e com inclinações regulares, ao invés de uma lousa cheia. Se ela produzir um par defeituoso, faça com que ela aponte a falha e persevere até que tenha finalizado sua tarefa; se ela não conseguir finalizar a tarefa hoje, deixe-a continuar amanhã e, no dia seguinte, e, quando ela conseguir obter os seis traçados perfeitos, que esta seja uma ocasião de triunfo. Deve ser assim também com as pequenas tarefas de pintura, desenho ou construção em que ela se lança – que tudo o que ela fizer seja bem feito. (…) Intimamente conectado ao hábito de ‘trabalho perfeito’ está o hábito de concluir qualquer coisa que estiver fazendo. Uma criança raramente deve ser autorizada a começar um novo empreendimento até que o último esteja concluído” v.1 p160

Charlotte Mason ainda cita a necessidade de um bom local para a criança se sentar, uma mesa de apropriada altura em que ela possa se posicionar adequadamente.

Como podem ver, beleza, perfeição e riqueza de palavras estão atrelados em uma atividade. Virtudes e bons hábitos associados à formação acadêmica da criança. O método Charlotte Mason busca a formação integral da criança.

“Isto é apreciação, cuja função é pesar e considerar, devidamente e delicadamente, os méritos, as boas qualidades de uma pessoa, de um país, de uma causa, de um livro ou de uma imagem. A apreciação é uma deliciosa moradora da Casa do Coração, e está continuamente reunindo a colheita da alegria. É muito bom e agradável notar uma marca de altruísmo aqui, de delicadeza ali, de honra em outro lugar; observar e valorizar o registro da beleza da perfeição na obra de um homem qualquer, quer esta obra seja um grande poema ou a limpeza de uma sala.”  V.4 p.148

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Lizie é mãe homeschooler apaixonada pelo método de Charlotte.

Muito obrigada pela contribuição Lizie!

“A Arte da Narração” por Charlotte Mason

narrationCrianças Narram Por Natureza.

Narrar é uma arte, como fazer poesia ou pintar, porque está dada, na mente de toda criança, esperando para ser descoberta, e não é o resultado de nenhum processo de educação disciplinar. Um decreto criativo o chama à existência. “Narre”; e a criança narra fluentemente, copiosamente, em seqüência ordenada, com detalhes gráficos e precisos, com uma escolha justa de palavras, sem verbosidade ou tautologia, tão logo ela consiga falar com facilidade.

Continuar lendo ““A Arte da Narração” por Charlotte Mason”

Seria Charlotte adepta da Educação Natural?

Esse texto não pretende ser um ensaio, mas visa apenas lançar algumas considerações sobre o assunto que surgiu em nosso grupo/curso de Brasília. A dúvida, como diz o título do texto, é: “Seria Charlotte adepta da Educação Natural proposta por Rousseau, ou teria ela bebido de suas fontes?”

Dei uma volta pela internet para trazer a vocês uma explicação que pudesse resumir de maneira mais eficaz a proposta de Rousseau para que pudéssemos responder essa pergunta. O texto encontra-se neste link, e aqui colocarei algumas citações.

“Rousseau, um dos mais bem conceituados pensadores do Século XVIII, na sua obra Emílio ou da Educação, propõe um projeto para a formação de um novo homem e de uma nova sociedade, apresentando-nos os princípios gerais para uma educação de qualidade. A sua influência, no campo educacional, deve-se assim a esta obra. Nela, trata da educação de uma criança acompanhada de um preceptor que a auxiliará a ter uma educação conforme a natureza, preservando-a da sociedade corruptora… Deste modo, preconizando a educação conforme a natureza, Rousseau quer que o homem seja educado para si mesmo… Assim, é preciso pensar seriamente no significado da infância, para que se proporcione uma educação cujo processo será determinado pela natureza, dando atenção às diversas fases do seu desenvolvimento. Pois não devemos impor os saberes dos homens à criança; é preciso considerar cada um em seu lugar, ou seja, considerar o homem no homem e a criança na criança, sabendo-se que ambos são diferentes e têm suas próprias características… Seguindo esta linha de entendimento, compreendemos que a educação é um processo natural e não artificial. Portanto, a educação deve ser efetivada a partir do momento que se respeite o desenvolvimento natural da criança e não forçá-la a aprender coisas de adulto… Diante de tal contexto, Rousseau afirma que “O primeiro de todos os bens não é a autoridade, mas a liberdade. O homem verdadeiramente livre só quer o que pode e faz o que lhe agrada” (ROUSSEAU, 2004, P.81)… É importante mencionar que as paixões, que dominam e destroem o homem, não provem da natureza; o indivíduo é quem se apropria delas, tornando-se, assim, infeliz, pois a única que nasce com o homem é o amor de si, as outras são modificações. Nesse sentido, Rousseau afirma: “Fiz ver que a única paixão que nasce com o homem, o saber, o amor de si, é uma paixão em si mesma indiferente ao bem e ao mal, que se torna boa ou má a não ser por acidente e segundo as circunstâncias nas quais se desenvolve”. (ROUSSEAU in FORTES, 1989, p. 12). Pensando assim, compreendemos que, na natureza, tudo é correto: o homem é quem modifica tudo. Pois a fonte de nossas paixões é natural; as outras são modificações que se aglutinam a esta fonte natural.”

Cito aqui, agora, o que a própria Charlotte afirma, em um de seus livros (v.2, pg 65) em total oposição à proposta de Rousseau:

Nós Não Devemos Crescer Em Estado Natural

Precisamos enfrentar os fatos. Nós não devemos crescer em estado natural. Há algo simples, conclusivo, até mesmo idílico, na afirmação de que isso e aquilo é “natural”. O que mais seria necessário? Jean Jacques Rousseau pregou a doutrina da educação natural, e nenhum outro reformador teve tão grande número de seguidores. “É a natureza humana”, dizemos, quando o agressivo Harry pega seu tambor das mãoes de Jack; quando a bebê Marjorie, que ainda não tem nem dois anos, grita pela boneca de Susie.

As coisas acontecem exatamente assim e, por essa mesma razão, isso deveria ser tratado desde cedo. Até mesmo Marjorie deveria ser ensinada a agir melhor. “Eu sempre termino de ensinar a obediência aos meus filhos antes que completem um ano de idade”, disse uma sábia  mãe [Susanna Wesley]; e qualquer um que conheça a natureza das crianças e as possibilidades abertas ao educador dirão: por que não?

Ensine a obediência no primeiro ano, e todas as virtudes da boa vida virão ao longo dos demais; todos os anos com seu próprio trabalho definido em relação ao treinamento de caráter. Edward é um filho egoísta quando chega ao seu quinto aniversário? O fato é anotado no caderno anual de seus pais, juntamente com a resolução de que, em seu sexto aniversário, ele será, pela graça de Deus, uma criança generosa. Mas, nessa hora, o leitor que não percebeu que exercitar a disciplina é uma das principais funções da paternidade, sorri e fala sobre a “natureza humana” com todo o ar de um argumento incontestável.

Eis aí apenas uma das inúmeras ponderações que Charlotte faz sobre a natureza da criança (Rousseau afirma que as crianças nascem boas, enquanto Charlotte reconhece a inclinação natural da criança para o mal) e também sobre importância fundamental da autoridade dos pais na vida da criança (como vemos em seu terceiro princípio, que permeia todos os aspectos da vida da criança: “Os princípios da autoridade, por um lado, e da obediência, por outro, são naturais, necessários e fundamentais”). Vemos, portanto, que Charlotte é completamente defensora da atuação dos pais na educação dos filhos, a fim de que cresçam e se desenvolvam no caminho correto.

Charlotte realmente propõe liberdade para os nossos filhos, mas essa liberdade é, portanto, limitada por nossa autoridade. Quando fala de educação formal, por exemplo, ela enfatiza que as crianças devem receber um banquete de ideias e devem ser deixadas livres para se alimentarem do que estiver à mesa, na proporção que lhes seja apropriada para o momento. Contudo, é preciso notar que quem escolhe o cardápio para o banquete são os pais, e jamais as próprias crianças. As crianças não são livres para escolher o que quiserem entre um universo de opções; elas são livres para escolher o que quiserem dentro daquilo que os pais selecionaram e autorizaram.

“A criança é livre para fazer o que deve, mas sabe muito bem no fundo de seu coração que não está livre para fazer aquilo que não deve. A criança que, ao contrário, cresce sem um forte senso de autoridade por trás de todas as suas ações, mas, ao invés disso recebe frequentes exortações para ser boa e obediente, está ciente de que pode escolher o bem ou o mal, que pode obedecer ou desobedecer, que pode falar a verdade ou mentir; e, mesmo quando ela escolhe o certo, ela o faz à custa de uma grande quantidade de desgaste nervoso e de lágrimas. Seus pais retiraram dela o apoio de sua autoridade na difícil escolha de fazer o certo, e ela foi deixada sozinha para fazer o maior esforço possível: o esforço de decisão.”

Portanto, podemos concluir que os ensinos de Charlotte também fazem oposição ao Construtivismo. Ao afirmarmos que pelo método de Charlotte “as crianças ganham a habilidade de educar a si mesmas” nós não estamos dizendo que elas vão construir seu próprio conhecimento a partir de si mesmas, mas, que ao terem acesso aos melhores livros (selecionados por nós), elas vão crescer e se desenvolver ensinadas diretamente pelos autores dos livros, tendo eles como professores, e não precisando de nossa mediação entre elas e os livros. Nossa autoridade nunca sai de cena, pois somos nós quem decidimos o que a criança vai ler, contudo, nós não ditamos o que a criança deve aprender da leitura: as “relações” que a criança formará são particulares e fazem parte de seu contato pessoal com as ideias vivas, portanto, de sua auto-educação.

Mas, e sobre a ênfase que Charlotte dá em relação ao contato com a Natureza e à liberdade que devemos dar as crianças para aprender na natureza?

Para Charlotte, a Natureza é um grande livro vivo que deve ser lido e desfrutado pelas crianças. Nesse caso, ela insiste que a mãe não deve ficar mediando demais o contato da criança com a Natureza, mas deixar que a natureza fale por si mesma com a criança. Isso não significa, contudo, que ela vai pra natureza livre de qualquer regra. A criança deve ser encorajada a estar em contato com a natureza de acordo com o que Charlotte chama de Inatividade Controlada (a mãe que possui autoridade sobre seus filhos não fica dizendo “faça isso, não faça aquilo”, mas suas regras estão o tempo todo implícitas no ambiente e devem ser seguidas pelas crianças). Uma das únicas permissões que Charlotte faz no sentido de que a mãe deve agir como intermediária entre a natureza e a criança trata-se de elevar o pensamento da criança ao Criador, apontar a grandiosidade de Deus por meio de Suas obras.

“Em primeiro lugar, não os mande; se houver qualquer possibilidade, leve-os; pois, embora as crianças devam ser essencialmente deixadas à vontade, há muito a ser feito e muito a ser evitado durante estas longas horas ao ar livre.”

“Elas devem ser deixadas em paz, deixadas a si mesmas por algum tempo, para assimilarem o que puderem da beleza da terra e do céu; pois dos males da educação moderna, poucos são piores do que este: o constante falatório de seus responsáveis não deixa à pobre criança um momento de tempo, nem um centímetro de espaço sequer, para que ela possa se admirar de algo — e crescer. Ao mesmo tempo, aqui está, para a mãe, a oportunidade de treinar a visão e a audição da criança e plantar sementes de veracidade em sua alma aberta, as quais deverão germinar, florescer e dar frutos, sem sua ajuda ou conhecimento posteriores.”

“Agora, considere que desperdício culposo de energia intelectual seria calar uma criança – abençoada com essa capacidade desordenada de ver e conhecer – dentro das quatro paredes de uma casa ou das ruas sombrias de uma cidade. Ou, suponha que ela seja deixada solta no campo, onde há muito o que ver – seria quase tão ruim deixar essa grande faculdade da criança se dissipar em observações aleatórias por falta de método e direção.”

Um abraço!

Arielle

[Parent’s Review] “Cultura Materna”

Parent’s Review foi uma revista da qual Charlotte Mason foi editora.

Está escrito em algum lugar: “Uma mãe é apenas uma mulher, mas ela precisa do amor de Jacó, da paciência de Jó, da sabedoria de Moisés, da previsão de José e da firmeza de Daniel”. Mas uma mãe não só precisa ter todas essas qualidades; ela deve tê-las todas de uma só vez, frequentemente quando ainda é muito jovem, e, frequentemente, quando não teve nenhum tipo de treinamento prévio em relação tarefas admiravelmente variadas que ela tem que realizar. De uma única vez (tomando um caso extremo), uma jovem que tem toda a sua vida protegida e resguardada, não só de todos os problemas, mas de todas as experiências da vida, torna-se responsável pela felicidade familiar do marido e ( como se isso já não fosse muito) pela saúde e felicidade de um pequeno ou grande número de seres humanos em crescimento, e pelos ajudantes que contrata por dinheiro – que têm que ser dirigidos, controlados, encorajados ou reprovados, e conduzidos com segurança ao longo dos infinitos perigos do serviço doméstico. Antes de se casar, ela faz apenas uma pequena ideia das extremas dificuldades de se gerenciar a mais complicada das máquinas: uma casa – não por uma semana apenas, durante a ausência de sua mãe, mas, ano após ano, sem parar ou estagnar, pelo resto da sua vida.

Se essas duas coisas são difíceis, o caso é ainda mais complicado quando uma responsabilidade inteiramente inédita vem sobre ela: não apenas sua própria saúde, mas a saúde de outras pessoas dependem de como ela gerencia sua própria vida. E então, talvez, justo quando ela está dominando a situação, e uma criança preenche todo o seu coração, mais cômodos se tornam necessários, e mais e mais, e as perguntas dos empregados continuam, a gestão das despesas continua, o desejo de ser mais do que nunca companheira de seu marido se torna mais e mais forte, e o centro de tudo isso é uma pequena mulher – esposa, mãe, patroa, tudo em um! Então, acontece que ela fica sobrecarregada. Então, acontece que ela se desgasta. Então acontece que, em seus esforços para ser a esposa, a mãe e a patroa ideal, ela esquece que ela é ela mesma. Então acontece que, de fato, ela deixa de crescer.

Não há visão mais triste na vida do que uma mãe, que se desgastou tanto durante a infância de seus filhos, que não tem nada para oferecer durante a juventude deles. Quando a época de bebê acaba e a fase escolar se inicia, com muita frequência as crianças se dedicam a provar que sua mãe está errada. Você vê, com frequência, uma criança provando seu pai para ver se ele está errado? Eu acho que não. Pois o pai está crescendo muito mais frequentemente do que a mãe. Ele está ganhando experiência ano a ano, mas ela permanece parada. Então, quando seus filhos chegam a esse momento tão difícil entre a infância e o desenvolvimento completo, ela fica perplexa; e, embora ela possa fazer muito por seus filhos, ela não conseguirá fazer tudo o que pode, se ela, assim como eles, não estiver crescendo!

Não há necessidade de uma “cultura materna” [quer dizer, um contínuo esforço para continuar crescendo em conhecimento e habilidades]? Mas como o estado das coisas pode ser alterado? Muitas mães dizem: “Eu simplesmente não tenho tempo para mim mesma!” “Eu nunca leio um livro!” Ou então, “eu não acho correto pensar em mim mesma!” Elas não só fazem suas mentes morrerem de fome, mas o fazem deliberadamente, e com um sentimento de auto sacrifício que parece fornecer ampla justificação. Há, inclusive, infelizmente, uma grande quantidade de pessoas que pensam que esse tipo de coisa é tão agradável que a opinião pública parece justificá-la. Mas, a opinião pública deve justificar alguma coisa? Ela justifica laços apertados – ou saltos altos – ou rédeas para cavalos? A opinião pública nunca poderá justificar qualquer coisa que carregue o tom “Oh, é apenas uma mãe” em relação a qualquer pessoa jovem.

Esse tom não é o tom correto. Mas, pode ser alterado? Cada mãe deve estabelecer isso por si mesma. Ela deve colocar as coisas na balança. Ela deve ver o que é mais importante – o tempo gasto em luxuosamente regozijar-se dos encantos de seu bebê fascinante, ou o que ela pode fazer com esse tempo para se manter “crescendo”, por causa do “amanhã” desse bebê, quando ele vai desejar estar com ela muito mais do que agora.

A única maneira de fazer isso é estar tão fortemente impactada pela necessidade de seu próprio crescimento, que ela mesma a torne um objetivo real na vida. Ela raramente poderá receber ajuda externa. A colocação resoluta de senhorita Três-Anos em sua cadeira em um extremo da mesa com seus brinquedos, do senhor Cinco-Anos no outro com suas ocupações, e o fascinante senhor Bebê no tapete no chão com seu arco e sua bola – o anúncio decidido: “Agora mamãe ficará ocupada” – vai trazer um mundo de benefícios para esses pequenos! Embora você perderá algumas de suas ações encantadoras, eles ganharão o respeito do tempo da mãe, e alguma autoconfiança nesta pechincha, enquanto as costas cansadas da mãe se aliviam, mesmo que por um curto período de tempo, no sofá ou sentados sobre o chão. Assim, ela pode ouvir seus filhos, e talvez pensar um pouco – não sobre vestidos e alimentos, mas sobre temperamentos e sobre como lidar com eles; ou ela pode pegar um livro e “crescer” por meio dele. Isso ajudaria em algo, mas não o suficiente. A mãe deve ter tempo para si mesma. E não devemos dizer “não posso”. Qualquer um de nós pode dizer, até que tenhamos tentado, não por uma semana, mas por um ano inteiro, dia após dia, que “não podemos” obter uma meia hora das vinte e quatro horas do dia para “Cultura Materna?” –  meia hora diária, em que podemos ler, pensar ou “lembrar”.

É tão fácil perdermos o hábito de ler; não tanto, talvez, o poder de desfrutar dos livros, como o verdadeiro poder de ler em absoluto. É incrível como, depois de não poder usar os olhos por um tempo, o hábito de leitura dinâmica precisa ser recuperado dolorosamente. O poder da leitura dinâmica deveria ser muito desejado, e as pessoas que leem todas as palavras são tristemente deixadas para trás pelas pessoas que leem de um ponto a outro num relance. Esse é poder que nossos filhos estão adquirindo na escola, e esse é o poder que estamos perdendo quando nos recusamos a dedicar um pouco de tempo para nossa “Cultura Materna”. Vale muito a pena conseguir e manter este hábito; e para fazer isso, não é nem um pouco necessário ler livros “maçantes”.

A mulher mais sábia que já conheci – a melhor esposa, a melhor mãe, a melhor patroa, a melhor amiga – me disse uma vez, quando lhe perguntei como, com sua saúde fraca e tantas demandas de seu tempo, ela conseguia ler tanto: “Eu sempre mantenho três leituras – uma leitura difícil, um livro moderadamente fácil e um romance, e eu sempre busco aqueles que eu me sinto apta para ler”. Esse é o segredo; sempre “mantenha” algo para crescer. Se nós, mães, estivéssemos “crescendo”, haveria menos desvios entre nossos meninos, ficaríamos menos afastadas de nossas meninas.

Parece que nós, mães, muitas vezes, simplesmente somos as responsáveis pelas dificuldades que encontramos mais adiante na vida, ao fechar nossas mentes no presente. O que precisamos é o hábito de tirar nossa cabeça daquilo que alguns são tentados a chamar de “sacola de trapos doméstica” de confusões, e dar a ela uma boa ventilação daquilo que a mantém “crescendo”. Uma rápida caminhada pode ajudar. Mas, se desejamos fazer o nosso melhor pelos nossos filhos, devemos crescer; e do nosso poder de crescimento certamente depende, não apenas a nossa futura felicidade, mas a nossa futura utilidade.

Não há, portanto, necessidade de mais “Cultura Materna”?

Traduzido e Republicado com a permissão de Ambleside Online

Traduzido por Arielle Pedrosa

Livros Vivos Para Crianças de Zero a Seis Anos (Parte I)

Caro leitor, minha proposta aqui é clarificar o significado de “livros vivos” na filosofia de Charlotte Mason. Devo deter-me, neste artigo, tão somente aos anos iniciais que precedem a educação formal da criança. Começarei (Parte I) apresentando alguns trechos extraídos dos Volumes 1 e 5 da série de livros Home Education de Charlotte Mason, para deixar claro que o tempo livre para brincar é a sua prioridade para esta idade, e que deveríamos prezar mais pela qualidade dos livros do que pela quantidade deles. Em seguida, mostrarei exemplos daqueles que não são livros vivos (Parte II) e, por fim, daqueles que realmente se enquadram nesta classificação (Parte III).

  1. Sobre a Filosofia de Charlotte Mason

Em seu primeiro volume de livros, Charlotte afirma:

“Quanto tempo ao ar livre as crianças devem ter diariamente? E como é possível garantir isso a elas? Nesses dias de extraordinária pressão educacional e social, talvez o primeiro dever de uma mãe para com seus filhos seja garantir-lhes um tempo de crescimento tranquilo, seis anos completos de uma acolhedora vida passiva e, a parte acordada desses anos, gasta principalmente ao ar livre. E isso não só para ganho em saúde corporal: corpo e alma, coração e mente, são alimentados com sua comida apropriada quando as crianças são deixadas à vontade para viver sem conflitos e estímulos em meio às alegres influências que as inclinam a serem boas.”

“Considerar a vida fora de casa no desenvolvimento de um método de educação, veio em segundo lugar, porque meu objetivo é mostrar que a principal função da criança – seu trabalho no mundo durante os primeiros seis ou sete anos de vida – é descobrir tudo o que pode sobre qualquer coisa que observe por meio de seus cinco sentidos; mostrar que a criança tem um apetite insaciável por todo conhecimento obtido desta maneira; e que, portanto, seus pais devem se esforçar para favorecer  o livre conhecimento da Natureza e dos objetos naturais; mostrar que, na verdade, a educação intelectual da jovem criança deve repousar sobre o livre exercício do poder perceptivo, porque os primeiros estágios do esforço mental são marcados pela excessiva atividade desse poder, e a sabedoria do educador consiste em seguir a liderança da Natureza no desenvolvimento do ser humano completo.”

Destas duas citações podemos concluir que, para Charlotte Mason, os primeiros seis anos da criança deveriam ser vividos de forma intensa, não diante de livros, mas diante da natureza e das coisas presentes em seu ambiente, para que ela pudesse captar o máximo de coisas por si mesma, sem a necessidade de intermediários.

Quer dizer, então, que os livros não são importantes? É claro que os livros têm seu lugar, mas a preocupação primária de Charlotte era formar na criança a capacidade de se maravilhar, apreciar e desfrutar de tudo o que é justo, verdadeiro e belo; e o contato com a natureza é fundamental para esse deslumbramento. Portanto, ao dispor literatura para as crianças pré-escolares, devemos ter isso em mente: o foco principal não é a obtenção de conhecimento em si, mas o amor pela vida. Por isso, em seu quinto volume, Charlotte afirma:

 “Por esse tipo de cultura [cultura doméstica], refiro-me não tanto à obtenção de conhecimento, nem mesmo à aquisição do poder de aprender, mas ao cultivo do poder de apreciar, de desfrutar de tudo o que é justo, verdadeiro e belo em pensamento e expressão…. Algumas crianças, por direito de descendência, buscam os livros como patos buscam a água; mas o deleitar-se em um bom pensamento, bem colocado, não se adquire naturalmente.”

E, para forjar nas crianças esta capacidade de apreciação, é preciso criar nelas o gosto pela literatura de valor desde o berçário:

 “O hábito da leitura casual, sobre o qual o Sr. John Lubbock diz palavras tão sábias e agradáveis, é uma forma discreta de dissipação intelectual, que faz mais mal do que percebemos. Muitos que não leriam sequer uma brilhante novela de um certo tipo, sentam-se para ler besteiras sem escrúpulos…. O prejuízo começa no berçário. Antes mesmo que uma criança consiga ler de fato, todos os hóspedes de pessoas amigáveis demonstram seu interesse nela, dando-lhe de presente um “livro bonito”. Um “livro bonito” não é necessariamente um livro de imagens, mas um em que a página esteja bem dividida em diálogos ou parágrafos curtos. Livros bonitos para a idade da sala de aula seguem a mesma ideia daqueles do berçário e, superados o berçário e a sala de aula, estamos prontos para as mais fáceis novelas de “Mudie”; a sucessão de “livros bonitos” nunca nos falta; não temos tempo para obras de fibra intelectual, e não temos mais poder de assimilação do que a aluna que se alimenta de cheesecakes… Nós permanecemos “leitores pobres” durante toda a nossa vida.”

“Proteja o berçário; não permita ali qualquer coisa que não possua verdadeiro sabor literário; que as crianças cresçam com alguns poucos livros lidos repetidamente, e que não tenham nenhum cuja leitura não custe um esforço mental considerável. Isto não é um sofrimento. Atividade e esforço, seja do corpo ou da mente, é uma alegria para a criança.”

Para finalizar, faço algumas observações pertinentes com relação a escolha de livros, segundo a filosofia de Charlotte.

  1. É melhor que a criança possua poucos livros excelentes, cuja leitura custará esforço mental, lançará as bases para os livros de alto valor literário que deverão ser lidos posteriormente, e cultivará um apreço pela beleza das palavras, do que ter muitos livros fáceis, superficiais, meramente divertidos, que estimulam na criança a preguiça mental e a obtenção de satisfação sem custo.
  2. É preferível que a criança tenha poucos livros, mas que sejam profundos, a fim de que ela possa se fundamentar neles e digeri-los com calma. “Fora com os livros e com a “leitura” – pelos primeiros cinco ou seis anos de vida. A infinita sucessão de livros de histórias, cenas, mudando como um panorama ante a vista da criança, é uma dissipação mental e moral; a criança não adquire um fundamento sobre o qual possa crescer, ou não tem oportunidade de digerir o que recebe. É também contrário à natureza.”
  3. É preciso buscar livros que vão estimular a imaginação a partir do texto ao invés de tornar a criança uma receptora meramente passiva e dependente de imagens.
  4. É importante que o livro eleve as impressões da criança, tanto no que diz respeito às questões estéticas (da beleza das imagens e do texto), quanto no que diz respeito às questões morais e emocionais. A história deve possuir ideias vivas, que inspirem na criança o apreço pela nobreza de caráter, pelas relações de amor e serviço, de autoridade e obediência, de bondade, pela virtude.

Se você gostou do texto ou ficou com alguma dúvida, por favor, deixe seu comentário. Semana que vem estaremos com a segunda parte do texto, em que eu vou mostrar exemplos do que não são livros vivos.

“As crianças não têm poder de  auto-convencimento” por Charlotte Mason

“Hábito é DEZ naturezas”. Se eu pudesse apenas fazer com que os outros vissem com meus olhos o quanto isso significa para o educador! Pois o hábito nas mãos da mãe, é como a roda para o oleiro, a faca para o escultor – o instrumento pelo qual ela pode tornar real o projeto que já concebeu em seu cérebro. Observe que o material já está ali para começar a obra; a roda não habilitará o oleiro a produzir uma xícara de porcelana em argila grosseira, mas o instrumento é tão necessário quanto o material ou o projeto. Continuar lendo ““As crianças não têm poder de  auto-convencimento” por Charlotte Mason”

Bem-Vindo!

É com muita alegria que inauguramos este blog, fruto de ideias cheias de vida que invadiram os nossos corações. Não, não foram nossas próprias ideias; também não foi fácil encontrá-las. Essas ideias vieram de longe, passaram pela Inglaterra do século XIX e chegaram até nós por meio de bons amigos de caminhada. Essas ideias fizeram arder nossos corações, mudaram formas de pensar, provocaram uma mudança real em nossa vida diária. Por isso dizemos: não são apenas mais um punhado de informações, não são a mera opinião de alguém, são pensamentos vivos, capazes de transmitir seu calor mesmo depois de um século da existência da pessoa que os estruturou.

Que ideias são essas? E quem as concebeu? Charlotte Mason as estruturou, certamente, mas as ideias não são apenas dela, foram transmitidas para ela assim como estão sendo transmitidas a nós. Transmitidas por meio de livros, dentro dos quais o mais importante foi a Bíblia. São ideias sobre pessoas, e como elas aprendem, porque aprendem, e o que deveriam aprender, são ideias sobre Deus e como Ele fez o universo, e o que Ele quer que aprendamos. São ideias sobre nós e como devemos viver, sobre nossas responsabilidades e também sobre o privilégio que temos em viver em um mundo cheio de tantas obras magnificas de nosso Criador; e sobre o desfrutar dessas obras, e sobre ter uma vida cheia de coisas vivas, coisas que realmente importam, coisas com significado para nós e para as próximas gerações, coisas que estiveram nesse mundo antes de nós e permanecerão vivas após nossa partida: a natureza, a boa arte, as palavras verdadeiras, os bons hábitos, a boa comida, a boa música, as virtudes.

Foram essas as ideias pelas quais Charlotte viveu e as quais dedicou-se a propagar. Porque educar deve ir muito além de instruir a mente de alguém; deve alcançar o mais profundo do ser de uma pessoa com riquezas que certamente farão diferença em todas as áreas de suas vida.

Embarque conosco nessa jornada, desfrute do blog e deixe seus comentários, eles são muito importantes para nós! Venha aprender com Charlotte Mason!

Arielle & Mariane.