[Parent’s Review] Obediência Irracional

Parent’s Review, Volume 3, 1892/93, pgs. 845-849

 

Nós vivemos em uma era de individualidade. Nos consideramos superiores a nossos antepassados ​​puritanos, mas inconscientemente retornamos à sua teoria da responsabilidade individual. Nada é valorizado por nós em segunda mão. Espera-se que até mesmo as crianças tenham razões próprias para suas crenças e princípios, e estejam preparadas para ataques que poderiam ter consequências tristes, caso suas crenças e princípios fossem tomados simplesmente da crença de outros.

A mesma tendência é levada para a educação.

É considerado essencial, por muitos teóricos modernos, que o grande objetivo da educação seja capacitar uma criança a guiar suas ações à luz da razão pura, que a razão deveria ser seu único guia desde o princípio. Qualquer apelo ao cego instinto de obediência, dizem-nos, é coerção, e coerção não pode ter lugar num sistema de autogoverno individual digno do iluminismo do século XIX. Somente a ignorância e o orgulho impedem que os pais utilizem esse sistema com seus filhos.

Em caso de dúvidas do lado prático, somos frequentemente informados de que uma criança é perfeitamente capaz de compreender que sua razão ainda não está desenvolvida e que, no momento, ela deve depender, até certo ponto, da razão de outros cuja a experiência é maior.

Mas antes de começar uma defesa do método antiquado de educação, pode-se observar que tal criança é rara, e que tal espécime, pelo menos comum o suficiente para ter direito a alguma consideração ao se delinear uma teoria educacional, é filho do julgamento bruto e vontade forte, agindo geralmente por impulso, e sujeito a ser preconceituoso onde a vontade e a razão estão em oposição, mas possuindo um espírito de reverência confiante que acredita na perfeita bondade e infalibilidade das pessoas adultas.

Além disso, pode consolar aqueles que tremem pela “mais alta prerrogativa do homem”  lembrar que uma coisa é ignorar ou depreciar o cultivo da faculdade de raciocínio na educação de uma criança, tanto moral quanto intelectual, e outra completamente diferente é insistir para que o princípio da obediência seja incutido, independente do porquê e do motivo do mandamento dado, de modo que seja habitual para a criança obedecer sem esperar que qualquer apelo ao seu julgamento forneça as razões sobre as quais essa obediência pode ser razoavelmente entregue.

A razão é uma faculdade de desenvolvimento tardio em comparação com, por exemplo, a vontade. Uma criança pequena não só não tem os dados para raciocinar, mas a própria faculdade de raciocinar é imatura. Mas vamos aceitar que não devemos exigir obediência da criança sem o consentimento pleno de sua razão. Devemos então começar colocando nosso bebê, digamos de quatro anos de idade, de posse de todas as circunstâncias do caso em questão, e de todo conhecimento que nós, após vinte, trinta ou quarenta anos de experiência, conseguimos acumular sobre o assunto, a fim de que ele possa estar qualificado a chegar a uma conclusão lógica.

Enquanto isso, devemos suspender nossa autoridade, por mais importante que seja o assunto, até que a criança por seu processo de raciocínio tenha decidido se pode concordar conosco ou não. E se, no final, ele discordar? A justiça exigirá então que nos rendamos. A necessidade pode exigir que afirmemos a autoridade em desafio à justiça, quando a criança está irritada com a longa incerteza. Richter comenta:

“Mães, em parte por bondade, em parte por um amor inerente ao movimento saudável da língua, dão tantas razões para suas ordens quanto podem superar os argumentos opostos da criança, e se, por fim, não são capazes de produzir mais argumentos, terminam afirmando sua autoridade. Seria melhor ter começado com ela e, certamente, depois da obediência, as razões encontrarão uma prontidão imediata dos ouvidos abertos e imparciais.”

A história da nação hebraica em sua infância fornece um grande exemplo de treinamento em obediência irracional. Entre os muitos mandamentos detalhados dados para sua orientação, encontramos quase nenhum ao qual uma razão é anexada, além da única razão constrangedora que está na raiz de toda lei Divina, e que é refletida na reivindicação da autoridade do pai pelo simples motivo de ser pai. Tal reivindicação não está no escopo do argumento, pois não admite nenhum questionamento sobre o certo ou errado da ordem em si.

Vimos que tal questionamento pode terminar em dificuldade, possivelmente em danos reais. É uma ajuda real para uma criança de vontade forte saber que uma decisão, uma vez tomada, será final. Dá uma sensação de algo mais forte do que ela, que é totalmente confiável e verdadeiro, e a pequena vontade se curva diante da presença de um maior, sem perceber que o faz. É uma espécie de lei da necessidade que repousa a mente por sua absoluta imutabilidade.

E a lição da obediência irracional tem vantagens práticas óbvias, as quais dificilmente é necessário enfatizar. Circunstâncias nas quais o instinto de obediência tem sido o único meio possível de salvar a vida de uma criança são frequentes. Circunstâncias em que a exposição de justificativas seria altamente prejudicial – por exemplo, ao confiar a uma criança informações que ele não deve repetir, são bastante comuns.

Para ir a um nível mais alto – qual é o sentido do dever, senão o reconhecimento de uma lei suprema, fora e além de si mesmo, que não pode ser transgredida sem punição?

E como podemos incutir esse senso abstrato de dever numa criança, a menos que a coloquemos face a face com uma lei externa que é absoluta, e tão abstrata que não necessariamente se digna a se justificar a cada pedido da mente inquiridora?

Seguramente, insistir nessa prática, é diminuir toda a concepção de obediência como uma virtude em si mesma. Não é apenas por conveniência que as crianças são obrigadas a obedecer, mas porque a obediência é uma coisa linda e porque ela evoca outras coisas belas – confiança, autonegação, autocontrole, reverência grata pelo melhor. É a grande solução de tudo o que é estranho e dificultoso em nossas vidas. Pois, afinal de contas, a vontade de um pai é apenas um fraco prenúncio das muitas leis inexplicáveis ​​da vida que terão de ser reconhecidas e obedecidas. Pode haver um melhor treinamento para essas leis superiores do que a disciplina da obediência na infância, quando o amor torna isso fácil? Não é uma grande parte da disciplina a vida após a morte ser constantemente cercada de mistério? Não estão os homens de todas as idades perguntando “por quê?” Há inúmeras perguntas que não terão resposta para satisfazer a razão deste mundo e para as quais a única resposta, portanto, deve ser – obedecer – na escuridão e no mistério da vida, obedecer com firmeza.

E como esta é a lei da vida de todos, e como requer grande autocontrole, fé e paciência, certamente é natural que devamos, desde o início, ser forçados a reconhecer uma lei que transcenda nossa razão e requeira nossa obediência confiante. Novamente, a obediência irracional é um contrapeso útil àquele individualismo forte que é natural de toda criança, mas que logo se transforma em egoísmo a menos que a criança seja ensinada a respeitar a importância dos outros e se considerar insignificante comparada com a comunidade a qual ela pertence. A lição do Pai da Filosofia de que o homem é um animal social chega lentamente a uma criança, mas seus desdobramentos práticos podem ser proveitosamente trazidos para o lar, exigindo que ele obedeça a regras feitas com vistas ao bem geral, sem se afetar diretamente.

A doutrina subjacente a tal exigência, da responsabilidade pelos outros, deve esperar por considerável avanço da razão e da experiência antes que ela possa ser compreendida.

E se isso parece muito exigente, e premeditado para esfriar e reprimir a jovem vida em seu livre desenvolvimento, lembremo-nos de que a perfeita simpatia e confiança entre pais e filhos irá neutralizar tudo isso e impedir qualquer perda de liberdade que seria inevitável e resultado fatal do sistema “irracional” caso essa simpatia faltasse. Mas quando já existe o vínculo, não há medo que ele se enfraqueça pela exigência de obediência inquestionável, pois essa demanda está em harmonia com a reverência natural da criança por pessoas mais velhas. Essa reverência e a confiança que provém dela são os presentes mais preciosos da infância. Eles são perdidos muito cedo, em contato com o mundo e na descoberta da ignorância e dos malfeitos das pessoas adultas. Vamos cultivá-los tanto quanto pudermos na vida familiar, deixando as crianças dependerem da nossa palavra. Eles farão isso instintivamente sem reivindicações de seu julgamento independente. Eles vão olhar para os pais como seres absolutamente perfeitos – “apóstolos cheios de revelações”. Não há necessidade de destruir essa fé colocando-a cedo demais à prova e tornando nossos filhos céticos e auto dependentes, desde que honremos sua confiança sendo dignos dela, até onde sabemos, lembrando que “a mentira de um apóstolo destrói todo o mundo moral”.

“Argumente com seu filho sobre tudo”, disse George Eliot, “e faça dele um monstro, sem reverência, sem afeição”. Vamos preferencialmente, se tivermos algum bem em nós, sofrer esse bem de fazer esse apelo silencioso ao que é bom em nossos filhos, onde teremos certeza de uma resposta.

É realmente uma coisa terrível quando deixamos que outros acreditem em nós quando nos achamos indignos, mas certamente, se tivermos qualquer capacidade de nobreza, nada nos inspirará tanto a tornar-nos dignos, como saber que alguém acredita em nós e, acima de tudo, uma criança.

Traduzido e revisado por Paula Lima e Tina Schallhorn

[Parent’s Review] Obediência Voluntária

por Henry Beveridge

Volume 8, 1897, págs. 83-91

 

Vamos agora voltar nossa atenção para o lado moral da obediência. A obediência moral ou voluntária é diferenciada da obediência da compulsão pela presença de motivos que implicam a liberdade de vontade, e expressos por tais modos de fala como “eu devo”; “Eu vou, porque está certo”; “Eu devo, porque está de acordo com a lei da minha vida.” Ela não é mais sancionada por nenhuma autoridade externa, mas somente pelo julgamento interior autoconsciente do intérprete do ato; A compulsão exterior é substituída pelo sentido interior do dever, ou, ainda mais, por um senso de adequação que se tornou semelhante ao julgamento da razão e ao livre impulso da emoção. Atrás dos julgamentos, “eu devo”, “eu vou”, “eu preciso”, há a consciência da liberdade, e na parte de trás do ato que se segue é uma força dominante, – a força que nós chamamos de vontade. O ato assim iniciado é chamado moral ou imoral, no sentido mais restrito, conforme coincide ou discorda de certos padrões ou ideais fixos – em planos superiores ou inferiores – do que é bom ou do que é certo. Mas será esta obediência voluntária, esse atraente senso de aptidão, puramente o fruto de uma atividade espontânea interior, ou pode surgir pela estimulação externa? É claro, de qualquer modo, que não pode ser forçado a existir por qualquer compulsão externa. Compulsão, como vimos, produz obediência compulsória; pode também produzir hábito através de muitas repetições, mas o mero hábito automático não contém nenhum elemento do dever: por trás de toda atividade obediente deve haver vontade livre, ativa e consciente.  Como então surge o senso de dever? A resposta está cercada de dificuldade. Eu arriscaria dizer, no entanto, que o senso de dever não pode ser despertado senão pela percepção de uma solidariedade de relação entre as partes de uma unidade social. Quando essa percepção é formada, surge necessariamente a concepção de uma lei ou ordem natural cujos vínculos, mais ou menos formulados, são concebidos como ligando as partes a um todo. Assim como é a necessidade do membro não inteligente do organismo inferior desempenhar sua função, sob pena da desorganização de todo o corpo, ou da destruição dos membros que não funcionam, torna-se assim o dever do membro autoconsciente do corpo social, cumprir as leis de seu organismo superior sob a mesma pena. O senso do dever – a realização da existência do dever para nós – pode surgir, primeiro, através da incidência da penalidade pela violação da lei, – em outras palavras, através do lento e árduo ensino da experiência; ou, pode surgir através do que é na realidade apenas uma forma imaginativa desta experiência – a comunicação de um espírito moral com outro espírito moral. Essa transferência espiritual ocorre, talvez não apenas, mas de qualquer modo mais prontamente, com aqueles que amamos, confiamos e admiramos. Ocorre livremente por um processo análogo à fertilização orgânica e não pode ser imposto à força a partir de fora. A posição dos pais nessa questão não é então forçosamente a impor deveres extrínsecos, – já que os deveres não podem ser impostos de fora, – mas direcionar todo o peso de sua influência para o desenvolvimento dentro do filho de uma vontade moral, livre, sábia e forte para escolher o certo e recusar o mal. Isso só pode ser efetuado através do contato ativo com a atmosfera, material e espiritual, através do uso sábio da influência e do exemplo compreensível e da apresentação cuidadosa de idéias e ideais.

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[Parent’s Review] Princípio 1- “As Crianças Nascem Pessoas”

Liberdade vs Várias Formas de Tirania

Por Charlotte Mason

Publicado pela primeira vez em The Parents Review, volume 22, junho de 1911 (pg. 419-437).

“O mistério de uma pessoa, de fato, é sempre sublime para aquele que tem um sensouh para o divino”.
Carlyle

“Nós vivemos de admiração, esperança e amor!
E quando estes estão bem e sabiamente firmados,
Na dignidade de ser nós ascendemos ”.
Wordsworth

[¶1] Muitos de nós ficamos surpresos ao ler no Times, no verão passado, as descobertas feitas por exploradores alemães no local da primeira capital da Assíria. Layard havia nos tornado há muito tempo familiarizados com os templos e palácios; mas não esperávamos descobrir que todas as casas, mesmo as menores, parecem ter contido um banheiro. Da mesma forma, ficamos surpresos ao ler sobre as grandes obras de irrigação realizadas pelo povo do México antes de Cortés introduzi-los ao nosso mundo oriental. Hoje, ficamos surpresos ao descobrir que a literatura e a arte da China antiga são coisas a serem levadas a sério. Vale a pena considerar por que esse tipo de surpresa ingênua se desperta em nós quando ouvimos falar de uma nação que não esteve sob a influência da civilização ocidental, competindo conosco em nossas próprias linhas. A razão é, talvez, que consideramos uma pessoa como um produto e possuímos uma espécie de fórmula inconsciente, algo assim: dadas tais e tais condições de civilização e educação, teremos tal e tal resultado, com variações. Quando encontramos o resultado sem as condições que pressupomos, claro, ficamos surpresos! Nós não entendemos o que Carlyle chama de “o mistério de uma pessoa”, e, portanto, não vemos que a possibilidade de altas realizações intelectuais, obras mecânicas surpreendentes, possa recair sobre as pessoas de qualquer nação. Portanto, não precisamos nos surpreender com as conquistas das nações do passado distante, ou em países remotos que não tiveram o que consideramos nossas grandes vantagens. Esta doutrina, do mistério de uma pessoa, é muito saudável e necessária para nós nos dias de hoje; e nos esforçássemos para entende-la, não tropeçaríamos como acontece em relação aos nossos esforços de reforma social, educação, relações internacionais. A linha poética banal de Pope viria até nós com nova força, e seria uma simples questão de que:

“O estudo adequado da humanidade é o ser humano”.

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