A lição de anatomia do Dr. Nicolaes Tulp

 

“A lição de anatomia do Dr. Nicolaes Tulp” é uma pintura a óleo sobre tela de 1632 de Rembrandt que faz parte do acervo do Museu Mauritshuis em Haia, na Holanda. A pintura é considerada uma das primeiras obras-primas de Rembrandt. As aulas de anatomia eram um evento social no século XVII, ocorrendo até mesmo em teatros, com estudantes, colegas e público em geral autorizados a participar mediante o pagamento de uma taxa de entrada.

Na pintura notamos que os espectadores estão apropriadamente vestidos para a ocasião. Acredita-se que as figuras mais altas (que não estão segurando o papel) e as mais à esquerda foram adicionadas à cena posteriormente. A cada cinco ou dez anos, a Associação dos Cirurgiões encomendava um retrato e Rembrandt foi contratado para essa tarefa quando tinha 26 anos e havia acabado de chegar a Amsterdã. Foi sua primeira grande encomenda na cidade. Cada um dos homens incluídos no retrato teria pago uma certa quantia de dinheiro para ser incluído no trabalho, e os números mais centrais (neste caso, o Dr. Tulp) provavelmente pagavam mais, até o dobro.

O retrato anatômico feito por Rembrandt alterou radicalmente as convenções do gênero, incluindo um cadáver inteiro no centro da imagem e criando não apenas um retrato, mas uma dramática Mise-en-scène. Falta uma pessoa: o Preparador, cuja tarefa era preparar o corpo para a lição. No século XVII, um cientista importante como o Dr. Tulp não estaria envolvido em trabalhos manuais e sangrentos como dissecação, e tais tarefas seriam deixadas para os outros. É por esse motivo que a imagem não mostra instrumentos de corte. Em vez disso, vemos no canto inferior direito um enorme livro aberto sobre anatomia, possivelmente o De humani corporis fabrica (Tecido do Corpo Humano) escrito em 1543 por Andreas Vesalius.

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Israel no Egito

 

Handel residia há muito tempo em Londres e desfrutara de grande sucesso como compositor de óperas italianas. No entanto, em 1733, uma companhia de ópera rival, a Ópera da Nobreza, havia dividido o público da ópera italiana em Londres. Não houve apoio suficiente para duas companhias de ópera italianas e Handel começou a encontrar novas audiências através da apresentação de oratórios e outros trabalhos corais em inglês.

O oratorio Saul, com um texto de Charles Jennens, foi apresentado no King’s Theatre em janeiro de 1739, e para a mesma temporada Handel compôs Israel no Egito, escrevendo a música entre 1 de outubro e 1 de novembro de 1738. Israel no Egito é um dos dois únicos oratórios de Handel com texto compilado de versículos da Bíblia, o outro sendo o Messias.

O libretista de Israel no Egito é incerto, mas a maioria dos estudiosos acredita que Charles Jennens seja o autor de ambos os textos. Israel no Egito e Messias compartilham a característica incomum entre os oratórios de Handel em que não há elencos de personagens que cantam dialogando e realizando um drama não encenado, mas contêm muitos refrões de textos bíblicos.

Ao compor Israel no Egito, naquela que já era sua prática comum, Handel reciclou músicas de suas composições anteriores e também fez uso extensivo da paródia musical, o retrabalho da música de outros compositores. Israel no Egito estreou no King’s Theatre de Londres, no Haymarket, em 4 de abril de 1739, com Élisabeth Duparc, William Savage, John Beard, Turner Robinson, Gustavus Waltz e Thomas Reinhold em seus papéis principais.

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Há duas versões que recomendo da obra:

Sob a regência de John Eliot Gardiner, com o Coro Monteverdi; e sob a regência de Andrew Parrott, com o Coro Taverner. 

Charlotte Mason e a Arte

“Há sempre aqueles a quem Deus sussurra ao ouvido, através de quem Ele envia uma mensagem direta. Entre esses mensageiros estão os grandes pintores que interpretam para nós alguns dos significados da vida. Compreender suas mensagens corretamente é o que se espera de nós. Mas isso, como outros bons presentes, não vem de maneira inata. E sim através do estudo humilde e paciente. Não é em um dia ou em um ano que Fra Angelico nos falará da beleza da santidade, que Giotto confiará sua interpretação do sentido da vida, que Millet nos mostrará a simplicidade e a dignidade que pertencem ao trabalho no campo, que Rembrandt nos mostrará o semblante comum.” (Charlotte Mason, volume 4, p.102)

Nas escolas criadas por Charlotte Mason, as crianças tinham contato com grandes artistas desde o início de sua vida escolar, aos seis anos. Para ela devemos fazer amizade com as obras de Arte e seus autores, por isso seus alunos passavam um trimestre inteiro em contato com as obras de um pintor e de um compositor. Conhecer as grandes obras e as mentes por trás delas oferece para as nossas crianças um repertório do que realmente é Belo e não contaminado visualmente e sonoramente. Conforme a criança vai tendo contato com a Arte, sua percepção visual e auditiva aumenta gradativamente e ela aprende a observar e a ouvir enquanto seu senso de beleza se desenvolve.

É importante deixar o artista falar, não há necessidade de grandes apresentações sobre sua biografia. Diga apenas o fundamental para aguçar a curiosidade das pequenas mentes. Dependendo da idade, a criança pode gostar de saber que Velasquez pintou reis, rainhas, príncipes e princesas, que Van Gogh costumava fazer muitos estudos até chegar à sua obra final, que Mozart começou a compor com quatro anos e que Beethoven continuou compondo mesmo perdendo sua audição. A intenção é que a criança aprecie a Arte e não que decore biografismos bobos. Quando deixamos os pequenos livres para observar e ouvir, eles percebem todos os detalhes do que estão vendo e ouvindo e assim são capazes de fazer suas próprias conexões.

E hoje vamos indicar o compositor Georg Friedrich Händel, um dos preferidos de Charlotte Mason. Nascido na Alemanha, morou durante algum tempo na Itália e acabou fixando residência na Inglaterra. É um dos maiores expoentes musicais do período barroco. Destacou-se principalmente no gênero vocal, sobretudo no oratório que usa técnicas da ópera para narrar histórias religiosas sem encená-las. Mas também compôs muitas obras e peças instrumentais.

A peça que se segue, a Música para os Reais Fogos de Artifício, é uma das mais populares do autor e possui uma origem curiosa: foi composta para acompanhar um espetáculo de fogos de artifício na corte inglesa!

Na semana que vem indicaremos um dos pintores preferidos de Charlotte Mason. Até lá!

 

 

“Caligrafia e cópia” por Lizie Carvalho

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Perguntaram-me recentemente como eu trabalho caligrafia com a Ana.

Deixe-me esclarecer, de início, que no método Charlotte Mason a caligrafia não é um fim em si mesmo. Ela está incluída no trabalho de cópia, a transcrição palavra por palavra de uma frase ou trecho, e seu objetivo não é simplesmente ter uma letra bonita.

Então, porque fazer caligrafia e cópia?

Primeiro, para ter uma letra bonita! Não, não estou me contradizendo.

Charlotte Mason nos chama a apreciarmos e nos deleitarmos na beleza da natureza, principalmente, e também na beleza das artes.

“A percepção da beleza em sua própria escrita e nas linhas que copiam deve conduzi-las com deleite a esse momento de trabalho.” v.1, p.238

Fica clara, em suas obras, sua intenção de ensinar a criança a contemplar, apreciar e se deleitar naquilo que é belo. O que é belo e harmonioso nos traz alegria bem como prazer aos nossos olhos e ouvidos.

 “A primeira prática de escrita direcionada a crianças de sete ou oito anos não deve ser escrever cartas ou ditados, mas fazer um trabalho de transcrição lento e bonito” v.1 p.238

Há notável importância dada por CM no que se escreve também. As crianças devem escolher suas passagens favoritas para transcreverem.

 “Pode-se acrescentar a esse exercício um certo senso de posse e deleite, ao permitir-se que as crianças escolham seu verso favorito em um ou outro poema para transcrever. Isso é melhor do que escrever um poema favorito por inteiro, exercício que enfada os pequenos antes que esteja terminado. Mas, um livro de sua própria autoria, composto de seus próprios versos selecionados, deveria agradar-lhes.” V1p239

A segunda razão é que o trabalho de cópia é a maneira como ortografia e gramática são trabalhadas nos anos iniciais pelo método CM.

“A transcrição deveria ser uma introdução à ortografia. As crianças deveriam ser encorajadas a olhar para a palavra, ver sua imagem com os olhos fechados e, depois, escrever de memória.” V1p239

Não há livros didáticos no método CM. Não há uma lista de palavras para que as crianças dividam em sílabas, destaquem a sílaba tônica e acentuem. Regras gramaticais são aprendidas pela leitura e cópia de cada palavra. E sua correta ortografia memorizada.

E como fazê-lo?

Como já citei, a criança deverá escolher os trechos a serem transcritos. Mas há um percurso até o momento em que a criança consegue transcrever uma ou mais frases.

As lições devem ser curtas. Cinco a dez minutos. Devemos iniciar na caligrafia com uma letra apenas. Uma letra por lição, escrita perfeitamente dará a criança algo pelo qual se esforçar sem chegar ao desleixo oriundo do cansaço. Peça à criança que copie perfeitamente por algumas vezes um mesmo traço. Não uma folha inteira, mas uma meia dúzia é suficiente. Há disponível para venda livros e apostilas que trazem esses traços básicos. Depois, faça o mesmo com as outras letras.

Na medida em que a criança for crescendo, procure evita a borracha. Não nos empenhamos em fazer algo que pode ser refeito. Após a criança ter escrito cada letra, traremos duas ou três palavras de um poema ou trecho já conhecido, seguindo, depois, para frases e períodos.

“Primeiro, a criança precisa concluir algo perfeitamente em todas as lições — um traçado reto ou curvo, ou uma letra. A lição de escrita precisa ser curta; não deve durar mais do que cinco ou dez minutos. A facilidade na escrita vem pela prática; mas, isso deverá ser assegurado posteriormente. Até lá, o principal a ser evitado é o hábito do trabalho descuidado.” V.1 p.233-234

Aqui está apontado um dos princípios de uma educação CM: o hábito da execução perfeita.

“A criança não deve receber qualquer trabalho que não possa executar perfeitamente, e, portanto, deve-se exigir dela perfeição como algo natural. Por exemplo, se você a colocar para fazer cópia de traçados e permitir que ela encha uma lousa com todo tipo de inclinações e todo tipo de espaçamentos, seu senso moral será corrompido e sua visão ferida. Dê a ela seis traçados para copiar; permita que ela entregue seis traçados perfeitos, com espaçamentos regulares e com inclinações regulares, ao invés de uma lousa cheia. Se ela produzir um par defeituoso, faça com que ela aponte a falha e persevere até que tenha finalizado sua tarefa; se ela não conseguir finalizar a tarefa hoje, deixe-a continuar amanhã e, no dia seguinte, e, quando ela conseguir obter os seis traçados perfeitos, que esta seja uma ocasião de triunfo. Deve ser assim também com as pequenas tarefas de pintura, desenho ou construção em que ela se lança – que tudo o que ela fizer seja bem feito. (…) Intimamente conectado ao hábito de ‘trabalho perfeito’ está o hábito de concluir qualquer coisa que estiver fazendo. Uma criança raramente deve ser autorizada a começar um novo empreendimento até que o último esteja concluído” v.1 p160

Charlotte Mason ainda cita a necessidade de um bom local para a criança se sentar, uma mesa de apropriada altura em que ela possa se posicionar adequadamente.

Como podem ver, beleza, perfeição e riqueza de palavras estão atrelados em uma atividade. Virtudes e bons hábitos associados à formação acadêmica da criança. O método Charlotte Mason busca a formação integral da criança.

“Isto é apreciação, cuja função é pesar e considerar, devidamente e delicadamente, os méritos, as boas qualidades de uma pessoa, de um país, de uma causa, de um livro ou de uma imagem. A apreciação é uma deliciosa moradora da Casa do Coração, e está continuamente reunindo a colheita da alegria. É muito bom e agradável notar uma marca de altruísmo aqui, de delicadeza ali, de honra em outro lugar; observar e valorizar o registro da beleza da perfeição na obra de um homem qualquer, quer esta obra seja um grande poema ou a limpeza de uma sala.”  V.4 p.148

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Lizie é mãe homeschooler apaixonada pelo método de Charlotte.

Muito obrigada pela contribuição Lizie!

Cinco etapas para uma narração de sucesso.

Meu marido está levantando pesos há vários meses, um esforço para entrar em forma e melhorar sua saúde. Tem sido bom. O programa que ele está usando o desafia a aumentar regularmente o número de quilos que ele levanta, e ele estava feliz fazendo progresso e atingindo novos recordes de ascensão até janeiro. Então as rodas caíram do vagão.

De repente, ele não conseguiu progredir mais. Ele não conseguiu levantar nada mais pesado. O que estava errado? Depois de filmar alguns vídeos e analisá-los, ele descobriu o problema: Sua forma (execução) estava errada.

Ele não estava seguindo a mecânica básica de como levantar pesos corretamente, e isso estava impedindo seu progresso. Ele chegou a um certo nível, mas não conseguiu progredir sem a forma correta. Para aqueles de nós que usam o método de Charlotte Mason, é bom examinar nossa mecânica básica de vez em quando também.

Eu conversei com muitas mães que estão frustradas porque não parecem estar fazendo progresso algum. Elas chegaram a um certo ponto e parecem não conseguir ir além disso. Quando discutimos mais, geralmente há um componente que todas elas mencionam. É um componente básico de Charlotte Mason que pode fazer ou quebrar seu progresso: NARRAÇÃO.

Se você estiver fazendo uma lição de narração corretamente, você fará grandes avanços e seus filhos vão gostar de aprender. Se a sua forma estiver errada, no entanto, o desvio poderá impedi-lo de alcançar seus objetivos. Então, vamos examinar os fundamentos da narração – a forma correta, isso ajudará você a continuar progredindo e experimentando o sucesso.

Uma lição de narração de sucesso tem cinco etapas. Geralmente, quando uma mãe homeschool está frustrada com a narração, é porque está deixando de fora uma dessas etapas.

1. Escolha um bom livro vivo.

Alguns livros são quase impossíveis de narrar, mesmo para um narrador experiente. Se você está usando um desses, não fará muito progresso. Tenha certeza de que o livro que você está lendo, toca as emoções, inflama a imaginação, e pinta uma imagem que você possa visualizar mentalmente, como o autor descreve o que está acontecendo. Esse tipo de livro vivo – um que dá idéias, não apenas fatos secos – vai pavimentar o caminho para uma lição de narração suave.

2. Olhe para frente e para trás.

Esta etapa é provavelmente a que é esquecida com mais frequência. No entanto, é uma parte importante do processo e pode fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso de uma aula de narração. Tire alguns minutos para se orientar. Veja como a leitura de hoje se conecta ao que aconteceu da última vez e prepare sua mente para o que será lido hoje.

3. Leia a passagem.

Uma vez que sua mente esteja preparada, deixe o autor compartilhar suas grandes ideias. Sua mente vai ganhar boa comida para pensar. Somente certifique-se de saber quando parar de “comer”, em vez de continuar empanturrando sua mente e não ter tempo para digerir. Em outras palavras, fique de olho na extensão da passagem que você lê.

4. Reconte a passagem.

Após a informação entrar em sua mente, você deve interagir com ela se você realmente quiser aprender. Considerando o que você leu, ponderando como isso se aplica a outras ideias que você obteve, colocando em ordem, lembrando detalhes, misturando com a sua opinião e, em seguida, transformar esses pensamentos em frases coerentes e dizer-lhes a outra pessoa, é quando o real aprendizado toma lugar. Charlotte Mason chamou isso de “Ato do Saber”.

5. Discuta ideias.

Quaisquer perguntas que sejam feitas devem ser questões abertas de discussão que incentivam mais interação com as grandes ideias do autor. Perguntas como essas e uma lição com todos os componentes descritos acima, manterá a concentração na alegria de aprender para o crescimento pessoal.

Caso se depare com “Isso vai estar em teste?” nos comentários, isso é um sinal de que alguma coisa está deslocada, sua mecânica está errada, e seu progresso será prejudicado. Vamos reservar um tempo nas próximas semanas para ver cada etapa com mais detalhe e trazer suas lições de narração de volta à forma correta.

 

Traduzido por Mariane Bessa

Reproduzido e traduzido com a permissão de Simply Charlotte Mason.

Obs: Esse texto é parte de um e-book disponibilizado gratuitamente por Simply Charlotte Mason ( https://simplycharlottemason.com/store/five-steps-to-successful-narration/ )