[Parent’s Review] Obediência Voluntária

por Henry Beveridge

Volume 8, 1897, págs. 83-91

 

Vamos agora voltar nossa atenção para o lado moral da obediência. A obediência moral ou voluntária é diferenciada da obediência da compulsão pela presença de motivos que implicam a liberdade de vontade, e expressos por tais modos de fala como “eu devo”; “Eu vou, porque está certo”; “Eu devo, porque está de acordo com a lei da minha vida.” Ela não é mais sancionada por nenhuma autoridade externa, mas somente pelo julgamento interior autoconsciente do intérprete do ato; A compulsão exterior é substituída pelo sentido interior do dever, ou, ainda mais, por um senso de adequação que se tornou semelhante ao julgamento da razão e ao livre impulso da emoção. Atrás dos julgamentos, “eu devo”, “eu vou”, “eu preciso”, há a consciência da liberdade, e na parte de trás do ato que se segue é uma força dominante, – a força que nós chamamos de vontade. O ato assim iniciado é chamado moral ou imoral, no sentido mais restrito, conforme coincide ou discorda de certos padrões ou ideais fixos – em planos superiores ou inferiores – do que é bom ou do que é certo. Mas será esta obediência voluntária, esse atraente senso de aptidão, puramente o fruto de uma atividade espontânea interior, ou pode surgir pela estimulação externa? É claro, de qualquer modo, que não pode ser forçado a existir por qualquer compulsão externa. Compulsão, como vimos, produz obediência compulsória; pode também produzir hábito através de muitas repetições, mas o mero hábito automático não contém nenhum elemento do dever: por trás de toda atividade obediente deve haver vontade livre, ativa e consciente.  Como então surge o senso de dever? A resposta está cercada de dificuldade. Eu arriscaria dizer, no entanto, que o senso de dever não pode ser despertado senão pela percepção de uma solidariedade de relação entre as partes de uma unidade social. Quando essa percepção é formada, surge necessariamente a concepção de uma lei ou ordem natural cujos vínculos, mais ou menos formulados, são concebidos como ligando as partes a um todo. Assim como é a necessidade do membro não inteligente do organismo inferior desempenhar sua função, sob pena da desorganização de todo o corpo, ou da destruição dos membros que não funcionam, torna-se assim o dever do membro autoconsciente do corpo social, cumprir as leis de seu organismo superior sob a mesma pena. O senso do dever – a realização da existência do dever para nós – pode surgir, primeiro, através da incidência da penalidade pela violação da lei, – em outras palavras, através do lento e árduo ensino da experiência; ou, pode surgir através do que é na realidade apenas uma forma imaginativa desta experiência – a comunicação de um espírito moral com outro espírito moral. Essa transferência espiritual ocorre, talvez não apenas, mas de qualquer modo mais prontamente, com aqueles que amamos, confiamos e admiramos. Ocorre livremente por um processo análogo à fertilização orgânica e não pode ser imposto à força a partir de fora. A posição dos pais nessa questão não é então forçosamente a impor deveres extrínsecos, – já que os deveres não podem ser impostos de fora, – mas direcionar todo o peso de sua influência para o desenvolvimento dentro do filho de uma vontade moral, livre, sábia e forte para escolher o certo e recusar o mal. Isso só pode ser efetuado através do contato ativo com a atmosfera, material e espiritual, através do uso sábio da influência e do exemplo compreensível e da apresentação cuidadosa de idéias e ideais.

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O Hábito da Obediência

por Charlotte Mason

Volume 01

É decepcionante que, a fim de cobrir o terreno completo, devemos tratar destes hábitos morais, dos quais o cultivo a mãe deve a seus filhos, de maneira tão breve e inadequada;
mas devemos levar em conta que tudo o que já foi dito sobre o cultivo do hábito se aplica com a maior força possível a cada um desses hábitos.

1. O Dever Pleno de Uma Criança

O primeiro e infinitamente mais importante, é o hábito da obediência. De fato, a obediência é o dever pleno da criança e, por essa razão, todos os outros seus deveres são cumpridos como uma questão de obediência a seus pais. Não só isso: a obediência é o dever pleno do homem; obediência à consciência, à lei, à direção divina.
Alguém já observou muito bem que cada uma das três tentações registradas de nosso Senhor no deserto é uma sugestão para se praticar, não um ato de pecado declarado, mas um ato de obstinação: aquele estado diretamente oposto à obediência, e do qual brota todo tipo de insensatez ligada ao coração de uma criança.

2. Obediência Não é um Dever Involuntário

Contudo, se os pais perceberem que a obediência não é um mero dever involuntário, cujo cumprimento é um problema que se situa entre eles e a criança, mas que eles são os agentes designados para treinar a criança até que desenvolva a obediência inteligente de um ser humano que se obriga a cumprir a lei, eles verão que não têm o direito de renunciar à obediência de seu filho, e que cada ato de desobediência na criança é uma condenação direta dos pais. Além disso, eles verão que o motivo da obediência da criança não é aquele motivo arbitrário de “Faça isto ou aquilo, porque eu mandei”, mas o da injunção apostólica: “Filhos, obedeçam a seus pais no Senhor. porque isso é certo”.

3. As Crianças Devem Ter o Desejo de Obedecer

É somente na proporção em que a vontade da criança está presente no ato da obediência, e ela obedece porque seu senso de justiça faz com que ela deseje obedecer, apesar das tentações à desobediência – não por constrangimento, mas de boa vontade – que o hábito será formado. E este hábito irá, a partir de então, capacitar a criança a usar a força de sua vontade contra suas inclinações, quando estas a instigarem a um procedimento ilegal.
Afirma-se que filhos de pais rigorosos demais em exigir uma obediência minuciosa muitas vezes acabam doentes; e que órfãos e outras pobres crianças colocadas sob rígida disciplina aguardam apenas uma oportunidade de transgredir a ordem. E é exatamente assim; porque, nesses casos, não há treinamento gradual da criança no hábito da obediência; nenhum engajamento gradual de sua vontade com o doce serviço, nem uma oferta voluntária de submissão à mais alta lei: as pobres crianças são simplesmente coagidas a se submeterem à vontade, isto é, à obstinação de outro; de modo algum “porque isto é certo”, mas apenas porque é conveniente.

4. Espere a Obediência

A mãe não tem dever mais sagrado do que treinar seu filho a obedecer imediatamente. Fazer isso não é uma tarefa difícil; a criança ainda está “percorrendo nuvens de glória…de Deus, com quem habita”; o princípio da obediência está dentro dela, esperando para ser exercitado. Não há necessidade de repreender severamente a criança, ameaçá-la ou usar qualquer tipo de violência, porque os pais estão investidos da autoridade que a criança intuitivamente reconhece. Basta dizer: “Faça isso”, num tom calmo e autoritativo, e esperar que aquilo seja feito. A mãe freqüentemente perde o controle dos filhos quando eles detectam, pelo tom de sua voz, que ela não espera que eles a obedeçam; ela não estima sua posição; não tem confiança suficiente em sua própria autoridade. A grande fortaleza da mãe está no hábito da obediência. Se ela exige, desde o princípio, que seus filhos sempre a obedeçam, então, eles sempre o farão como algo natural; mas uma vez que dêem o primeiro passo rumo ao mau caminho, que descubram que podem desobedecer, uma luta lamentável começará, e essa luta normalmente termina com as crianças fazendo o que é certo aos seus próprios olhos.
Esse tipo de coisa é fatal: as crianças estão na sala de visitas e alguém toca a campainha. ‘Vocês devem subir para o quarto, agora.’ ‘Oh querida mamãe, deixe-nos ficar no canto perto da janela; nós ficaremos em silêncio!” A mãe fica bastante orgulhosa das boas maneiras de seus filhos, e eles permanecem. Eles não ficam em silêncio, é claro; mas esse é o menor dos males; eles conseguiram fazer o que escolheram e não o que lhes foi ordenado, e eles não colocarão seus pescoços sob o jugo novamente sem lutar. É em pequenas situações que a mãe é prejudicada. “Hora de dormir, Willie!” ‘Oh, mamãe, deixe-me apenas terminar isso’; e a mãe cede, desconsiderando que o caso em questão não é irrelevante; pois importa que a criança esteja diariamente confirmando o hábito da obediência pela repetição ininterrupta de atos de obediência. É espantoso como a criança é hábil em encontrar maneiras de fugir do espírito enquanto observa a letra. “Mary, entre”. ‘Sim mãe’; mas sua mãe chama quatro vezes antes que Mary entre. ‘Guarde seus blocos; e os blocos são guardados por dedos lentos e relutantes. “Você sempre deve lavar as mãos quando ouvir a primeira campainha”. A criança obedece daquela vez e nunca mais.
Para evitar essas demonstrações de obstinação, a mãe deve insistir desde o início em uma obediência imediata, alegre e perene – exceto por lapsos de memória por parte da criança. A obediência ocasional, relutante e indisposta dificilmente vale à pena; e é muito mais fácil formar na criança o hábito da obediência perfeita, ao nunca lhe permitir qualquer outra atitude, do que obter essa obediência meramente formal por um exercício constante de autoridade.
Aos poucos, quando a criança tiver idade suficiente, leve-a à confiança; mostre-a como é nobre ser capaz de fazer, em um minuto e de forma brilhante, algo que ela não gostaria de fazer. Para assegurar este hábito da obediência, a mãe deve exercer grande autocontrole; ela nunca deve dar uma ordem que não pretende ver totalmente executada. E ela não deve colocar sobre seus filhos fardos difíceis de suportar: uma ordem atrás da outra.

5. A Lei Assegura a Liberdade

As crianças que são treinadas a obedecer perfeitamente podem ser confiadas a uma grande dose de liberdade: elas recebem algumas instruções que sabem que não devem desobedecer; e em relação às demais coisas, têm permissão para aprender como dirigir
suas próprias ações, mesmo à custa de alguns pequenos contratempos; e não precisam ser importunadas com um disparar contínuo de “Faça isto” e “Não faça aquilo!”

 

Traduzido por Arielle Pedrosa

A Natureza Boa e Má da Criança

por Charlotte Mason

Volume 06

Afetos mal direcionados

Estamos cientes de que há mais do que  mente e corpo em nossas relações com as crianças. Nós apelamos para seus ‘sentimentos’; onde ‘mente’ ou ‘sentimentos’ são nomes que escolhemos dar a manifestações daquela entidade espiritual que é cada um de nós. Provavelmente não nos damos ao trabalho de analisar e nomear os sentimentos e descobrir que todos eles se enquadram nos nomes do AMOR e da JUSTIÇA, e que é a glória do ser humano ser dotado de uma grande quantidade desses dois, suficiente para todas as ocasiões da vida. E mais, as ocasiões vêm e o ser humano está pronto para encontrá-los com facilidade e triunfo.

Mas essa rica dotação da natureza moral é também uma questão com a qual o educador deve se preocupar. Ai! Ele se preocupa. Ele aponta a moral com mil chavões tediosos, dirige, instrui, ilustra e aborrece excessivamente as mentes ágeis e sutis de seus alunos. Este, dos sentimentos e suas manifestações, é certamente o campo para elogios e censuras pelos pais e professores; mas este elogio ou censura pode ou ser descartado pelas crianças, ou tomado como único motivo de conduta, elas seguem desacostumadas ​​a fazer uma coisa “por ser o certo”, mas apenas para ganhar a aprovação de alguém.

Essa educação dos sentimentos, a educação moral, é muito delicada e pessoal para um professor confiar em seus próprios recursos. As crianças não devem ser alimentadas moralmente como jovens pombos com comida pré-digerida. Eles devem escolher e comer por si mesmas e elas o fazem ouvindo e percebendo a conduta de outras pessoas. Mas eles querem uma grande quantidade desse tipo de alimento cujo assunto é a conduta, e é por isso que a poesia, a história, o romance, a geografia, as viagens, as biografias, a ciência e os cálculos devem ser todos postos em serviço. Ninguém pode dizer qual pedaço particular uma criança escolherá para seu sustento. Um menino de oito anos pode chegar atrasado porque “Eu estava meditando sobre Platão e não podia fechar os meus botões”, e outro pode encontrar seu alimento em “Peter Pan”! Mas todas as crianças devem ler muito e saber o que leram para nutrir sua complexa natureza.

Quanto às lições morais, elas são piores do que inúteis; O que as crianças querem é uma boa e diversa alimentação moral, da qual tiram as “lições” de que necessitam. É uma coisa maravilhosa que toda criança, mesmo a mais rude, seja dotada de amor e seja capaz de todas as suas manifestações como bondade, benevolência, generosidade, gratidão, compaixão, simpatia, lealdade, humildade, alegria; nós, pessoas mais velhas, ficamos espantados com a exibição luxuosa de qualquer uma dessas manifestações apresentadas pela criança mais ignorante. Mas essas aptidões são tão cunhadas do reino com o qual uma criança é provida que ela pode ser capaz de ter uma vida virtuosa sem lições morais sistemáticas; e, ai!, estamos cientes de certas tendências vulgares comuns em nós mesmos que nos fazem andar com delicadeza e confiança, não ao nosso próprio ensino, mas ao melhor que temos na arte e literatura e acima de tudo para aquele depósito de exemplo e preceito, a Bíblia, para nos capacitar a tocar esses delicados espíritos em assuntos elevados.

São Francisco, Collingwood [William Gershom? ou Lorde Cuthbert?], o padre Damien, um dos veteranos de guerra entre nós, farão mais pelas crianças do que anos de conversa.

Então há aquela outra provisão maravilhosa para uma vida correta presente mesmo em uma alma humana negligenciada ou selvagem. Todos tem justiça em seu coração; um grito de “fair play” atinge a plebe mais sem lei, e todos nós sabemos como as crianças nos atormentam com  seu “não é justo”. É muito importante saber que, em matéria de justiça e de amor, existe em todos uma provisão adequada para a condução da vida: a inquietação geral, que tem sua origem em pensamentos errados e julgamentos errados muito mais do que em condições deficientes, é o resultado equivocado desse senso de justiça com o qual, graças a Deus, todos somos dotados.

Aqui, à primeira vista, temos uma função da educação. A justiça é outra provisão espiritual que falhamos em empregar devidamente em nossas escolas; e tão maravilhoso é este princípio que não podemos matar, paralisar, ou até mesmo entorpecê-lo, mas, sufocado em seu curso natural, ele espalha confusão e devastação onde deveria ter feito o solo fértil para os frutos de uma boa vida.

Poucas funções da educação são mais importantes do que de preparar os homens para distinguir entre os seus direitos e os seus deveres. Cada um de nós temos direitos e outras pessoas têm seus deveres para conosco como nós também temos em relação a elas; mas não é fácil aprender que temos precisamente os mesmos direitos que as outras pessoas e não mais; que outras pessoas nos devem apenas os deveres que devemos a elas. Esta bela arte de auto-ajustamento é possível a todos por causa do princípio inerradicável que habita em nós. Mas nossos olhos devem ser ensinados a ver e, consequentemente, a necessidade de todos os processos de educação, fúteis na proporção em que não servem a esse fim. Pensar de forma justa requer, como sabemos, conhecimento e consideração.

Os jovens devem deixar a escola sabendo que seus pensamentos não são deles; Que o que pensamos de outras pessoas é uma questão de justiça ou injustiça; que uma certa delicadeza de palavras é devida a todos os tipos de pessoas com quem eles têm que lidar; e que não falar essas palavras é ser injusto com seus vizinhos. Eles devem saber que a verdade, isto é, a justiça em palavra, é sua responsabilidade, assim como de todas as outras pessoas; há poucas ferramentas melhores para um cidadão do que uma mente capaz de discernir a verdade, e essa mente justa só pode ser preservada por aqueles que ficam atentos ao que pensam.

“No entanto, a verdade”, diz Bacon, “que apenas julga a si mesma, ensina que a investigação da verdade, que é o amor, ou a conquista dele, o conhecimento da verdade, que é a presença dela, e a crença da verdade, que é o deleite dela, é o bem soberano da natureza humana.”

Se a justiça nas palavras deve ser devidamente aprendida por todos os estudiosos, mais ainda deve ser a integridade, a justiça nas ações; integridade no trabalho, que desaprova métodos abusivos, seja aqueles do artesão que faz o mínimo possível no tempo, seja do estudante que recebe pagamento do tipo – o apoio, o custo de sua educação e a confiança imposta a ele pelos pais e professores. Portanto, ele não pode fazer as coisas de qualquer jeito, postergar, reclamar ou, de alguma outra forma, fugir de seu trabalho. Ele descobre que “meu dever para com meu vizinho” é “impedir que minhas mãos furtem e roubem”, e, quer um homem seja um trabalhador, um servo ou um cidadão próspero, ele deve saber que a justiça exige dele a integridade material que chamamos de honestidade; não a honestidade comum que detesta ser descoberta, mas aquele senso de valores refinado e delicado  que George Eliot exibe para nós em ‘Caleb Garth’.

Há outra forma em que o cidadão magnânimo do futuro deve aprender o senso de justiça. Nossas opiniões mostram nossa integridade de pensamento. Cada pessoa tem muitas opiniões, sejam por ela mesmo honestamente pensadas, sejam noções colhidas em seu jornal de estimação ou em seus companheiros. A pessoa que pensa suas opiniões modesta e cuidadosamente está cumprindo seu dever como se salvasse uma vida porque não há mais ou menos sobre esse dever.

Se um estudante deve ser guiado à justiça de pensamento do qual sólidas opiniões emanam, quanto mais ele precisa de orientação para chegar à justiça nos motivos, que nós chamamos de princípios. Pois afinal, o que são os princípios senão motivos de primeira importância que nos governam, movem nossos pensamentos e ações? Parece que escolhemos esses de uma maneira casual e raramente somos capazes de prestar contas deles e, ainda assim, nossas vidas são ordenadas por nossos princípios, bons ou ruins. Aqui, novamente, temos uma razão para uma leitura ampla e sabiamente ordenada; porque há sempre clichês flutuando no ar, como: “O que é o bem?” “É tudo podridão”, e coisas do tipo, que a mente vazia toma como base de pensamento e conduta, que são de fato, princípios insignificantes para a orientação de uma vida.

Aqui temos mais uma razão pela qual não há nada no estoque de tesouros espirituais do mundo bom demais para a educação de todas as crianças. Toda conto adorável, poema iluminador, história instrutiva, toda experiência de viagem e revelação da ciência existem para as crianças. “La terre appartient à lnfant, toujours à l’enfant,” [O chão pertence à criança, sempre com a criança] foi bem dito por Maxim Gorky, e devemos nos lembrar bem do fato.

O serviço que alguns de nós (da P.N.E.U) acreditamos ter feito  pela educação foi descobrir que todas as crianças, mesmo as crianças atrasadas, estão cientes de suas necessidades e pateticamente ansiosas pela comida que necessitam; que nenhuma preparação é necessária para esse tipo de dieta; que um vocabulário limitado, um ambiente sórdido, a ausência de uma base literária para o pensamento não são obstáculos; na verdade, eles podem se transformar em incentivos ao aprendizado, assim como quanto mais faminta a criança, mais pronta ela está para o jantar. Esta afirmação não é mera opinião; já foi amplamente provada em milhares de instâncias. Crianças de escolas pobres nas favelas estão ansiosas para contar toda a história da Waverly, usando continuamente da bela linguagem e estilo do autor. Eles falam sobre a Pedra de Roseta e sobre tesouros em seu museu local; eles discutem Coriolanus e concluem que “sua mãe deve tê-lo mimado”. Eles sabem de cor cada detalhe de uma pintura de La Hooch, Rembrandt, Botticelli, e não apenas não há evolução da história ou do drama, nem doçura sutil, nem inspiração de um poeta fora do alcance deles, mas eles se recusam a saber o que não os alcança em forma literária.

O que eles recebem sob esta condição eles absorvem imediatamente e mostram que sabem por aquele teste de conhecimento que se aplica a todos nós, isto é, eles podem dizer isto com poder, clareza, vivacidade e encanto. Estas são as crianças a quem temos distribuído os ‘três R’s’ por gerações! Não é de admirar que a delinquencia juvenil aumente; o rapaz intelectualmente faminto precisa encontrar alimento para sua imaginação, espaço para seu poder intelectual; e o crime, como o cinema, oferece, temos que admitir, bravas aventuras.

Traduzido por Paula Lima e Gabriely Cruvinel.

“A Natureza Boa e Má de Uma Criança” por Charlotte Mason

Nota de Publicação: visto que Charlotte era Anglicana, seu segundo ponto diverge da doutrina Calvinista. Entretanto, acreditamos que esta divergência não impede que as famílias de confissão calvinista utilizem a filosofia de Charlotte e sigam seu método de Educação, tendo em vista que, apesar de não crerem que as crianças possuam em si mesmas capacidade para o bem, crerem que o Espírito Santo opera a Seu tempo a regeneração no coração delas enquanto membros da Aliança seladas pelo batismo e criadas na fé, capacitando-as para todo o bem.

A Natureza Boa e Má de Uma Criança (capítulo 3, volume 6)

Crianças não nascem más, mas com possibilidades para o bem e para o mal

Bem-estar do Corpo

Um educador bem conhecido trouxe acusações pesadas contra todos nós pelo fato de que educamos as crianças como “filhos da ira”. Ele provavelmente exagera o efeito de qualquer ensinamento como este, e não percebe que a teoria do “pequeno anjo” é, de igual forma, totalmente prejudicial. O fato parece ser que as crianças são como nós adultos, não porque se tornaram assim, mas porque nasceram assim; isto é, com tendências, disposições, para o bem e para o mal, e também com um curioso conhecimento intuitivo sobre o que é bom e o que é mal. Aqui temos o trabalho da educação indicado. Há tendências boas e más no corpo e mente, coração e alma; e diante de nós reside a esperança de que podemos promover o bem a fim de atenuar o mal; isto é, sobre a condição de colocarmos a Educação em seu verdadeiro lugar como  serva da Religião. A comunidade, a nação, a raça, agora estão assumindo o devido lugar em nosso pensamento religioso. Não estamos mais ocupados apenas com o que uma mulher irlandesa chamou de “salvar sua alma suja”. Nossa religião está se tornando mais magnânima e mais responsável e é hora de que uma mudança semelhante ocorra em nosso pensamento educacional.

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[Parent’s Review] Princípio 1- “As Crianças Nascem Pessoas”

Liberdade vs Várias Formas de Tirania

Por Charlotte Mason

Publicado pela primeira vez em The Parents Review, volume 22, junho de 1911 (pg. 419-437).

“O mistério de uma pessoa, de fato, é sempre sublime para aquele que tem um sensouh para o divino”.
Carlyle

“Nós vivemos de admiração, esperança e amor!
E quando estes estão bem e sabiamente firmados,
Na dignidade de ser nós ascendemos ”.
Wordsworth

[¶1] Muitos de nós ficamos surpresos ao ler no Times, no verão passado, as descobertas feitas por exploradores alemães no local da primeira capital da Assíria. Layard havia nos tornado há muito tempo familiarizados com os templos e palácios; mas não esperávamos descobrir que todas as casas, mesmo as menores, parecem ter contido um banheiro. Da mesma forma, ficamos surpresos ao ler sobre as grandes obras de irrigação realizadas pelo povo do México antes de Cortés introduzi-los ao nosso mundo oriental. Hoje, ficamos surpresos ao descobrir que a literatura e a arte da China antiga são coisas a serem levadas a sério. Vale a pena considerar por que esse tipo de surpresa ingênua se desperta em nós quando ouvimos falar de uma nação que não esteve sob a influência da civilização ocidental, competindo conosco em nossas próprias linhas. A razão é, talvez, que consideramos uma pessoa como um produto e possuímos uma espécie de fórmula inconsciente, algo assim: dadas tais e tais condições de civilização e educação, teremos tal e tal resultado, com variações. Quando encontramos o resultado sem as condições que pressupomos, claro, ficamos surpresos! Nós não entendemos o que Carlyle chama de “o mistério de uma pessoa”, e, portanto, não vemos que a possibilidade de altas realizações intelectuais, obras mecânicas surpreendentes, possa recair sobre as pessoas de qualquer nação. Portanto, não precisamos nos surpreender com as conquistas das nações do passado distante, ou em países remotos que não tiveram o que consideramos nossas grandes vantagens. Esta doutrina, do mistério de uma pessoa, é muito saudável e necessária para nós nos dias de hoje; e nos esforçássemos para entende-la, não tropeçaríamos como acontece em relação aos nossos esforços de reforma social, educação, relações internacionais. A linha poética banal de Pope viria até nós com nova força, e seria uma simples questão de que:

“O estudo adequado da humanidade é o ser humano”.

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“Primeiro Princípio de Charlotte Mason” Por Art Middlekauff

“A ‘Criança é uma pessoa’ será o ponto crucial da nossa Cruzada” (Mason, 1904, p. 10)

O primeiro princípio do resumo de vinte pontos feito por Charlotte Mason é simplesmente:

As crianças nascem pessoas. (Mason, 1989f, p. xxix)

Composto de apenas quatro palavras, é o princípio mais curto deste resumo. Essa economia de palavras tem contribuído para um estado geral de confusão sobre o que Mason quer dizer com essa afirmação. Os intérpretes contemporâneos de Charlotte Mason abordaram esse princípio de várias maneiras.

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