[Parent’s Review] A Cura de um Hábito Mental

Autor desconhecido


Volume 2, 1891/92, pgs. 193-209

Eu li ” Dorothy Elmore’s Achievement ” na edição de janeiro da Revista dos Pais com grande interesse, e como posso fornecer algum testemunho da verdade do princípio que a história ensina, escrevi o seguinte relato de uma experiência pessoal.

Casei-me jovem com um homem com o dobro da minha idade, com quem passei dezoito anos muito felizes. Na verdade, raramente vi um casamento como o nosso e, olhando para trás, frequentemente atribuo boa parte dessa felicidade aos fatos seguintes.

Eu não tinha ainda muitas semanas de casada quando descobri que meu marido tinha uma disposição mal-humorada. Foi uma surpresa para mim, porque eu nunca tinha visto alguém realmente mal-humorado antes. Eu nunca tinha ido à escola nem me associado a outras crianças. Eu era filha única sem parentes, e a tendência de nosso pequeno círculo familiar era a irritabilidade de um tipo sincero que logo acabava, certamente com nenhum mau humor.

Esta nova experiência não foi agradável e admito que me senti alarmada. Eu amava muito meu marido; ele era um homem altamente intelectual, cheio de bom senso, possuidor de um coração bondoso e devotado a mim, mas eu imediatamente vi que “a pequena mancha” deu fruto em seus anos e “arruinaria tudo lentamente” e eu disse “Isso não pode ser assim!”

Reconheci que tal condição mental ou moral para um homem como meu marido era uma doença, e me perguntei se era curável na idade dele, quarenta anos; suportável eu não a achei – para mim mesma!

Por muito tempo, ponderei sobre o caso de problemas mentais que haviam chegado ao meu conhecimento, pois, embora isso tenha acontecido antes que o treinamento científico fosse considerado uma parte necessária da educação de uma menina, meu próprio senso comum me ensinou a observar que existem muitas aberrações no cérebro de pessoas perfeitamente sãs. Determinei-me observar e estudar meu paciente, e elaborar um plano que pudesse curá-lo, mesmo na sua idade de ataques crônicos de aborrecimentos, aos quais logo soube que ele havia cedido desde criança.

Acho que o primeiro raio de luz útil surgiu em minha mente quando, um dia, lembrando de um ataque particularmente tentador que o acometia, exclamei interiormente: “Oh! Se eu fosse sua mãe, ele nunca teria se tornado assim!” Isso foi uma revelação. O seguinte pensamento foi: “Por que eu não deveria me tornar uma verdadeira mãe para ele e ajudá-lo contra si mesmo? Eu não acredito que seja tarde demais para consertar. Ele deve continuar dessa maneira tola – ele que é tão bom, inteligente e querido – até o fim dos seus dias? E se tivermos filhos, eles também ficarão mal-humorados? Não, nunca, se eu puder ajudar! Além do mais, porque seria bom para ele se casar comigo se não for para eu ajudá-lo em troca de tudo o que ele está me ensinando? Sim, ele deve ser curado, e eu vou fazer isso”.

Depois de cada “ataque”, nós costumávamos conversar longamente sobre o assunto, pois eu via como ele estava envergonhado de não conseguir se controlar. Nós dois tentamos muitos planos de correção com sucesso. Não brigamos, pois no dia do nosso casamento havíamos entrado em um pacto solene para nunca ficarmos zangados ao mesmo tempo. Que quando alguém se sentisse “desorientado” de alguma forma, o outro que supostamente estaria mais capaz de segurar as rédeas do autocontrole iria apertar o freio em si mesmo até que o mal-humorado tivesse voltado, e isso funcionava bem, mas não impedia os hábitos mal-humorados do meu querido marido. Eles simplesmente se tornaram arraigados; sua vontade, geralmente forte, perdera seu poder de concentrar-se, por assim dizer, naquelas ocasiões particulares, e precisava da ajuda de outra vontade para permitir que sua condição enfraquecida se recuperasse.

Finalmente pensei no seguinte plano, que segue o mesmo princípio defendido pelo Dr. Evans na história de Dorothy, embora difira em detalhes. Elaborei um pequeno contrato com termos legais (ainda o guardo em meio a outras lembranças preciosas daquela parte abençoada de minha vida) que determinava que sempre que meu marido fosse tomado por um dos velhos humores ou ataques, eu deveria permitir a ele cinco minutos para recolher seus pensamentos e concentrar sua força de vontade. No final desse período, se estivéssemos sozinhos, eu o beijaria, se não estivéssemos, eu olharia para ele. Tudo que eu exigi como uma promessa estrita dele era que ele aceitaria o beijo, e devolveria o olhar. Ele assinou o acordo. Fiz isso também, pois tinha que prometer que não permitiria que qualquer aborrecimento que eu sentisse pudesse impedir o beijo ou o olhar; e pouco tempo depois, a primeira ocasião ocorreu quando a condição acordada teve de ser cumprida. Meu coração bateu rápido com a experiência. A novidade fez com que ela fosse bem sucedida da primeira vez, mas eu sabia que o resultado nem sempre seria tão satisfatório. Ainda assim me convenci que pouco a pouco o mau hábito deveria ser abandonado e, lentamente, mas definitivamente, ele desapareceu. Eu não digo que não foi uma luta difícil, foi. Levou vários anos para conseguirmos, mas quando uma vitória é fácil? Muitas e muitas vezes eu dizia em voz baixa ao olhar para o meu relógio: “O tempo acabou, querido”, e então via uma nova luz aparecer nos olhos e, tendo-lhe confiado o desejo que movia minhas ações, muitas vezes ouvi seus próprios lábios ecoarem meu pensamento: “Se você tivesse sido minha mãe!” Isso não valeu a paciência e a esperança?

Ele morreu com cinquenta e nove anos. Nosso filho mais velho tinha dezesseis anos, nosso filho caçula tinha dez. Eles estão crescidos agora, e há pouco tempo contei a eles essa história, para seu espanto, pois nunca souberam que seu pai havia sido vítima de tal hábito. Como nossos filhos desfrutavam de sua intimidade, sua ignorância do fato me demonstra que nós vencemos aquela forma angustiante de mau humor.

Quaisquer que fossem os atenuantes que ele possuía no final de sua vida, eles eram tão leves que não eram perceptíveis, exceto para a esposa que amava os fracos lembretes das lutas e vitórias passadas.

Aquela disposição apareceu em alguma das crianças? Um dos meus filhos tem ocasionalmente mostrado uma tendência ao silêncio quando não está satisfeito, e sem dúvida a melancolia teria evoluído para a falha hereditária se ele não tivesse sido ajudado por uma determinação vigilante por parte daqueles que sabiam que ele tinha que ser protegido da armadilha até que o hábito de um “padrão” mental diferente fosse estabelecido.

Traduzido e revisado por Paula Lima e Gabriely Cruvinel

“Educação é uma Disciplina”. E a punição?

disciplinaHábitos. Sabemos que o que “Educação é uma Disciplina” significa. Conhecemos o sétimo princípio de Charlotte, que afirma:

“Por ‘Educação é uma disciplina’, refiro-me à disciplina de hábitos formados definitivamente e conscientemente, quer sejam hábitos da mente ou do corpo. Os fisiologistas nos falam da adaptação da estrutura cerebral às linhas habituais de pensamento – isto é, aos nossos hábitos.”

Mas, muitas dúvidas surgem, então, sobre como corrigir um mau hábito, ou mau comportamento. O que Charlotte tem a dizer sobre isso?

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[Parent’s Review] “Cultura Materna”

Parent’s Review foi uma revista da qual Charlotte Mason foi editora.

Está escrito em algum lugar: “Uma mãe é apenas uma mulher, mas ela precisa do amor de Jacó, da paciência de Jó, da sabedoria de Moisés, da previsão de José e da firmeza de Daniel”. Mas uma mãe não só precisa ter todas essas qualidades; ela deve tê-las todas de uma só vez, frequentemente quando ainda é muito jovem, e, frequentemente, quando não teve nenhum tipo de treinamento prévio em relação tarefas admiravelmente variadas que ela tem que realizar. De uma única vez (tomando um caso extremo), uma jovem que tem toda a sua vida protegida e resguardada, não só de todos os problemas, mas de todas as experiências da vida, torna-se responsável pela felicidade familiar do marido e ( como se isso já não fosse muito) pela saúde e felicidade de um pequeno ou grande número de seres humanos em crescimento, e pelos ajudantes que contrata por dinheiro – que têm que ser dirigidos, controlados, encorajados ou reprovados, e conduzidos com segurança ao longo dos infinitos perigos do serviço doméstico. Antes de se casar, ela faz apenas uma pequena ideia das extremas dificuldades de se gerenciar a mais complicada das máquinas: uma casa – não por uma semana apenas, durante a ausência de sua mãe, mas, ano após ano, sem parar ou estagnar, pelo resto da sua vida.

Se essas duas coisas são difíceis, o caso é ainda mais complicado quando uma responsabilidade inteiramente inédita vem sobre ela: não apenas sua própria saúde, mas a saúde de outras pessoas dependem de como ela gerencia sua própria vida. E então, talvez, justo quando ela está dominando a situação, e uma criança preenche todo o seu coração, mais cômodos se tornam necessários, e mais e mais, e as perguntas dos empregados continuam, a gestão das despesas continua, o desejo de ser mais do que nunca companheira de seu marido se torna mais e mais forte, e o centro de tudo isso é uma pequena mulher – esposa, mãe, patroa, tudo em um! Então, acontece que ela fica sobrecarregada. Então, acontece que ela se desgasta. Então acontece que, em seus esforços para ser a esposa, a mãe e a patroa ideal, ela esquece que ela é ela mesma. Então acontece que, de fato, ela deixa de crescer.

Não há visão mais triste na vida do que uma mãe, que se desgastou tanto durante a infância de seus filhos, que não tem nada para oferecer durante a juventude deles. Quando a época de bebê acaba e a fase escolar se inicia, com muita frequência as crianças se dedicam a provar que sua mãe está errada. Você vê, com frequência, uma criança provando seu pai para ver se ele está errado? Eu acho que não. Pois o pai está crescendo muito mais frequentemente do que a mãe. Ele está ganhando experiência ano a ano, mas ela permanece parada. Então, quando seus filhos chegam a esse momento tão difícil entre a infância e o desenvolvimento completo, ela fica perplexa; e, embora ela possa fazer muito por seus filhos, ela não conseguirá fazer tudo o que pode, se ela, assim como eles, não estiver crescendo!

Não há necessidade de uma “cultura materna” [quer dizer, um contínuo esforço para continuar crescendo em conhecimento e habilidades]? Mas como o estado das coisas pode ser alterado? Muitas mães dizem: “Eu simplesmente não tenho tempo para mim mesma!” “Eu nunca leio um livro!” Ou então, “eu não acho correto pensar em mim mesma!” Elas não só fazem suas mentes morrerem de fome, mas o fazem deliberadamente, e com um sentimento de auto sacrifício que parece fornecer ampla justificação. Há, inclusive, infelizmente, uma grande quantidade de pessoas que pensam que esse tipo de coisa é tão agradável que a opinião pública parece justificá-la. Mas, a opinião pública deve justificar alguma coisa? Ela justifica laços apertados – ou saltos altos – ou rédeas para cavalos? A opinião pública nunca poderá justificar qualquer coisa que carregue o tom “Oh, é apenas uma mãe” em relação a qualquer pessoa jovem.

Esse tom não é o tom correto. Mas, pode ser alterado? Cada mãe deve estabelecer isso por si mesma. Ela deve colocar as coisas na balança. Ela deve ver o que é mais importante – o tempo gasto em luxuosamente regozijar-se dos encantos de seu bebê fascinante, ou o que ela pode fazer com esse tempo para se manter “crescendo”, por causa do “amanhã” desse bebê, quando ele vai desejar estar com ela muito mais do que agora.

A única maneira de fazer isso é estar tão fortemente impactada pela necessidade de seu próprio crescimento, que ela mesma a torne um objetivo real na vida. Ela raramente poderá receber ajuda externa. A colocação resoluta de senhorita Três-Anos em sua cadeira em um extremo da mesa com seus brinquedos, do senhor Cinco-Anos no outro com suas ocupações, e o fascinante senhor Bebê no tapete no chão com seu arco e sua bola – o anúncio decidido: “Agora mamãe ficará ocupada” – vai trazer um mundo de benefícios para esses pequenos! Embora você perderá algumas de suas ações encantadoras, eles ganharão o respeito do tempo da mãe, e alguma autoconfiança nesta pechincha, enquanto as costas cansadas da mãe se aliviam, mesmo que por um curto período de tempo, no sofá ou sentados sobre o chão. Assim, ela pode ouvir seus filhos, e talvez pensar um pouco – não sobre vestidos e alimentos, mas sobre temperamentos e sobre como lidar com eles; ou ela pode pegar um livro e “crescer” por meio dele. Isso ajudaria em algo, mas não o suficiente. A mãe deve ter tempo para si mesma. E não devemos dizer “não posso”. Qualquer um de nós pode dizer, até que tenhamos tentado, não por uma semana, mas por um ano inteiro, dia após dia, que “não podemos” obter uma meia hora das vinte e quatro horas do dia para “Cultura Materna?” –  meia hora diária, em que podemos ler, pensar ou “lembrar”.

É tão fácil perdermos o hábito de ler; não tanto, talvez, o poder de desfrutar dos livros, como o verdadeiro poder de ler em absoluto. É incrível como, depois de não poder usar os olhos por um tempo, o hábito de leitura dinâmica precisa ser recuperado dolorosamente. O poder da leitura dinâmica deveria ser muito desejado, e as pessoas que leem todas as palavras são tristemente deixadas para trás pelas pessoas que leem de um ponto a outro num relance. Esse é poder que nossos filhos estão adquirindo na escola, e esse é o poder que estamos perdendo quando nos recusamos a dedicar um pouco de tempo para nossa “Cultura Materna”. Vale muito a pena conseguir e manter este hábito; e para fazer isso, não é nem um pouco necessário ler livros “maçantes”.

A mulher mais sábia que já conheci – a melhor esposa, a melhor mãe, a melhor patroa, a melhor amiga – me disse uma vez, quando lhe perguntei como, com sua saúde fraca e tantas demandas de seu tempo, ela conseguia ler tanto: “Eu sempre mantenho três leituras – uma leitura difícil, um livro moderadamente fácil e um romance, e eu sempre busco aqueles que eu me sinto apta para ler”. Esse é o segredo; sempre “mantenha” algo para crescer. Se nós, mães, estivéssemos “crescendo”, haveria menos desvios entre nossos meninos, ficaríamos menos afastadas de nossas meninas.

Parece que nós, mães, muitas vezes, simplesmente somos as responsáveis pelas dificuldades que encontramos mais adiante na vida, ao fechar nossas mentes no presente. O que precisamos é o hábito de tirar nossa cabeça daquilo que alguns são tentados a chamar de “sacola de trapos doméstica” de confusões, e dar a ela uma boa ventilação daquilo que a mantém “crescendo”. Uma rápida caminhada pode ajudar. Mas, se desejamos fazer o nosso melhor pelos nossos filhos, devemos crescer; e do nosso poder de crescimento certamente depende, não apenas a nossa futura felicidade, mas a nossa futura utilidade.

Não há, portanto, necessidade de mais “Cultura Materna”?

Traduzido e Republicado com a permissão de Ambleside Online

Traduzido por Arielle Pedrosa

“As crianças não têm poder de  auto-convencimento” por Charlotte Mason

“Hábito é DEZ naturezas”. Se eu pudesse apenas fazer com que os outros vissem com meus olhos o quanto isso significa para o educador! Pois o hábito nas mãos da mãe, é como a roda para o oleiro, a faca para o escultor – o instrumento pelo qual ela pode tornar real o projeto que já concebeu em seu cérebro. Observe que o material já está ali para começar a obra; a roda não habilitará o oleiro a produzir uma xícara de porcelana em argila grosseira, mas o instrumento é tão necessário quanto o material ou o projeto. Continuar lendo ““As crianças não têm poder de  auto-convencimento” por Charlotte Mason”

“Formação de Hábitos” por Sonya Shafer

Um Trabalho dos Pais

 

Você já ouviu falar sobre gandy dancers? Eu acabei de descobrir esse termo e estou curtindo a excentricidade e o ritmo deles. Trata-se do apelido dado aos primeiros trabalhadores ferroviários que colocaram e fizeram a manutenção dos trilhos de trem nos anos antes do trabalho passar a ser feito por máquinas.

Meu marido lembrou-se de que o termo se referia ao homem que pressionava um longo e reto bastão de ferro contra a pista de aço. Ele devia agitar o bastão para empurrar o trilho de forma que este fosse preso no lugar exato. Conseguir que os trilhos ficassem alinhados era importante para mantê-los na direção certa e, assim, chegarem ao destino esperado, é claro; mas, aquilo também contribuía para a suavidade da viagem.

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